O grito do meu filho atravessou a porta antes mesmo de eu conseguir girar completamente a chave.
Não era um choro normal de recém-nascido.
Theo tinha apenas vinte e três dias, e eu já conhecia os pequenos sons que ele fazia quando estava com fome, incomodado ou simplesmente querendo colo.
Aquilo era diferente.
Era rouco, desesperado, quase sem pausas.
Minha mala caiu no corredor.
Eu tinha acabado de voltar de Dallas, onde passara quarenta e oito horas fechando um contrato que não poderia adiar.
Era minha primeira viagem desde que Helena dera à luz, e eu só aceitara ir porque minha mãe, Marlene, insistira que ficaria conosco.
“Eu cuido deles”, ela dissera.
“Pare de tratar sua esposa como se fosse feita de vidro.”
Eu deveria ter ouvido o desconforto escondido no silêncio de Helena quando aceitei.
Corri para a cozinha.
E parei.
Helena estava caída ao lado da ilha de mármore, uma das mãos aberta sobre o tapete e o rosto quase sem cor.
Theo gritava dentro do bebê-conforto no chão.
A manta dele estava torta, e suas pequenas pernas se agitavam freneticamente.
Minha mãe, porém, estava sentada à mesa.
Comendo.
Havia um banquete diante dela: frango assado, batatas gratinadas, legumes, molho, pães, salada, uma torta e um bolo de limão.
As travessas pertenciam ao conjunto que só usávamos em feriados.
Marlene cortou mais um pedaço de frango.
Olhou para Helena.
“Rainha do drama”, murmurou.
Meu corpo reagiu antes que minha cabeça acompanhasse.
Peguei Theo, apertei-o contra o peito e me ajoelhei ao lado da minha esposa.
“Helena.
Amor.
Abre os olhos.”
Sua pele estava fria e úmida.
As pálpebras tremeram.
“Lucas…”
“Estou aqui.”
Minha mãe suspirou atrás de mim.
“Não incentive essa encenação.
Ela está irritada porque sua tia Cecília e o resto da família viriam jantar.
Passou o dia reclamando que estava cansada.”
Olhei para a mesa.
Depois para ela.
“Quem fez tudo isso?”
Marlene inclinou a cabeça como se a resposta fosse óbvia.
“Helena.
Uma casa precisa funcionar mesmo depois que nasce uma criança.”
Três semanas antes, minha esposa havia perdido muito sangue durante o parto.
O obstetra passara vinte minutos me explicando os cuidados das primeiras semanas.
Ela estava anêmica, ainda sentia dores e deveria evitar esforço prolongado.
Eu tinha colocado as recomendações impressas na porta da geladeira.
“Você leu as instruções do médico”, falei.
“Li.”
“E fez uma mulher com três semanas de pós-parto preparar isso tudo?”
“Eu não fiz ninguém fazer nada.
Apenas avisei que receberíamos visitas.”
Helena mexeu os dedos.
Aproximei o rosto.
“Desde quando você está na cozinha?”
“Cinco…
da manhã.”
Olhei para o relógio.
Eram 17h21.
Algo em mim ficou completamente silencioso.
Minha mãe continuou falando.
“Mulheres estão ficando frágeis demais.
Quando Daniel nasceu, eu cuidava de duas crianças, da casa inteira e ainda recebia seu pai com jantar pronto.”
“Você chamou uma ambulância quando ela caiu?”
Marlene hesitou.
Foi menos de um segundo.
Mas foi suficiente.
“Ela acabou de cair.”
Peguei meu telefone.
Depois de falar com o atendimento de emergência e confirmar que Helena respirava e respondia, fiz exatamente o que me orientaram enquanto aguardávamos.
A equipe chegou poucos minutos depois.
Quando os paramédicos entraram, minha mãe finalmente se levantou.
“Isso é completamente desnecessário.”
Um dos profissionais olhou para ela sem responder.
Outro verificou Helena e rapidamente mudou de