que acontece depois?
— Eu fico com sono.
Às vezes acordo e não lembro de ter ido pra cama.
Aquela resposta não provava o que havia no frasco.
Também não me dava o direito de diagnosticar nada sozinho.
Mas mudava tudo.
— Há quanto tempo você guardou isso?
— Duas semanas.
— Por quê?
Ela apertou o coelho contra o peito.
— Porque o Marcos encontrou um igual.
Meu coração acelerou.
— Quando?
— Antes de ir embora.
— O que aconteceu?
Lia olhou para o corredor vazio.
— Ele e mamãe brigaram muito.
Ele disse que ia levar aquilo para alguém olhar.
— E depois?
— Depois ele sumiu.
Fiz outra pergunta, com cuidado.
— Você viu Marcos sair de casa?
Ela negou.
— Mamãe disse que ele foi embora de madrugada.
— Você ouviu alguma coisa?
— Eles gritaram.
Depois ficou quieto.
Ela respirou fundo.
— De manhã, mamãe queimou umas roupas dele na churrasqueira do quintal.
Meu primeiro impulso foi pegar o telefone e ligar para Renata.
Não fiz isso.
A experiência me segurou.
Se Lia estivesse dizendo a verdade, uma confrontação prematura poderia colocá-la em risco e destruir evidências.
Se houvesse outra explicação, eu ainda precisava de profissionais independentes para avaliá-la.
Na manhã seguinte, levei Lia ao hospital.
Expliquei apenas que precisávamos descobrir por que ela às vezes se sentia tão sonolenta.
— Mamãe vai ficar brava — ela disse no carro.
— Sua saúde vem primeiro.
No hospital, pedi que colegas que não trabalhavam diretamente comigo conduzissem a avaliação.
Uma pediatra e uma assistente social conversaram com Lia separadamente.
O frasco foi preservado para análise adequada.
Não houve uma resposta mágica em cinco minutos.
Mas houve preocupação suficiente para acionar protocolos de proteção.
Enquanto esperávamos, meu celular vibrou.
Renata.
Ignorei a primeira ligação.
Depois a segunda.
Na terceira, veio uma mensagem.
“Por que Lia não está na escola?”
Outra chegou quase imediatamente.
“Gabriel, onde vocês estão?”
Senti a tensão aumentar.
Eu não havia informado a escola sobre detalhes, apenas que Lia faltaria por motivo de saúde.
Perguntei à assistente social como proceder.
Ela recomendou que eu não fornecesse informações além do necessário enquanto as autoridades responsáveis eram acionadas.
Foi nesse momento que Lia puxou minha manga.
— Tem outra coisa dentro do Pipoca.
Ela abriu a costura novamente.
Desta vez tirou uma pequena chave prateada.
— De onde veio isso?
— O Marcos me deu.
A assistente social inclinou-se um pouco, sem se aproximar demais.
— Você lembra o que ele disse quando entregou a chave?
Lia assentiu.
— Ele falou para eu esconder e entregar para um adulto que acreditasse em mim se ele não voltasse.
Eu mal conseguia respirar.
— Essa chave abre o quê?
— Uma caixa que fica no armário da mamãe.
— Você já abriu?
— Não.
Mamãe sempre tranca o quarto quando viaja.
— Marcos sabia o que havia lá?
— Acho que sim.
Ela apertou os lábios.
— Foi por causa da caixa que eles brigaram.
Meu telefone tocou novamente.
Desta vez era o porteiro do condomínio.
— Senhor Gabriel, sua esposa acabou de chegar — disse ele.
— Chegar onde?
— Em casa.
Renata deveria estar em Florianópolis.
— Quando?
— Há uns dez minutos.
Olhei para a assistente social.
Naquele instante, recebemos a notícia de que