Ela comprava objetos baratos todos os dias para não desaparecer sozinha

fiquei caída no chão até anoitecer.

Senti um frio percorrer minhas costas.

— Dona Amália…

o que aconteceu?

Ela demorou a responder.

— Foi há quatro meses.

Escorreguei perto da cozinha e não consegui me levantar.

Meu telefone estava carregando no quarto.

— Quanto tempo ficou no chão?

— Não sei ao certo.

Algumas horas.

Seu Mauro me ouviu quando chegou do trabalho.

— O vizinho?

Ela confirmou.

— Ele chamou ajuda.

Felizmente não quebrei nenhum osso, mas fiquei muito assustada.

— Sua filha sabe?

— Sabe da queda.

Só não sabe o medo que fiquei de acontecer novamente.

Fechou os olhos por um instante.

— Depois daquele dia, comecei a pensar que, se algo me acontecesse, talvez ninguém percebesse durante muito tempo.

Ela olhou para as embalagens fechadas.

— Então as encomendas também viraram uma maneira de garantir que alguém tocasse a campainha.

Aquelas palavras me atingiram de uma forma que nenhuma reclamação no trabalho jamais havia conseguido.

A senhora diante de mim estava gastando dinheiro não apenas para ter companhia, mas para sentir alguma segurança.

E eu havia reclamado daquele endereço incontáveis vezes.

Meu celular começou a vibrar.

Marcos estava ligando.

Olhei para o nome na tela e senti a pressão familiar de sempre.

Mas, quando ergui os olhos, dona Amália estava esperando que eu fosse embora.

Deixei a chamada terminar.

— A senhora ainda tem aquele café?

Ela arregalou os olhos.

— Tenho, sim!

— Então acho que posso ficar alguns minutos.

Seu sorriso voltou tão rapidamente que senti vontade de chorar.

Sentamos na pequena cozinha, onde havia uma toalha bordada, duas xícaras diferentes e uma fotografia antiga junto à janela.

Na fotografia, dona Amália aparecia mais jovem, abraçada a um homem de cabelos escuros e sorriso largo.

— Antônio? — perguntei.

Ela assentiu.

— Meu marido.

Era mecânico.

Consertava o carro dos vizinhos sem cobrar quando alguém estava apertado.

Mas, veja só, nunca conseguiu fazer o relógio da nossa sala funcionar direito.

Rimos.

Ela me contou que havia trabalhado como costureira durante quase quarenta anos.

Que ainda guardava a primeira máquina de costura que comprara.

Que gostava de cultivar flores e de ouvir programas antigos no rádio.

Também falou sobre a filha, Teresa.

— Ela é enfermeira.

Trabalha muito.

Tem dois meninos pequenos.

Não quero que fique preocupada comigo o tempo inteiro.

— Mas ela sabe que a senhora se sente sozinha?

Dona Amália mexeu lentamente o café.

— Quando pergunta se estou bem, respondo que sim.

Acho que fiquei tão acostumada a não dar trabalho que já não sei pedir companhia.

Não soube o que dizer.

Minha própria mãe morava a menos de uma hora da minha casa, e eu não a visitava havia quase três semanas.

Sempre dizia que estava ocupada.

Na verdade, estava.

Mas naquele momento percebi que estar ocupada não precisava significar desaparecer da vida das pessoas.

Antes de ir embora, peguei um papel e escrevi meu número de telefone.

— Vou deixar aqui na geladeira.

Se acontecer alguma coisa, a senhora pode me ligar.

Ela segurou o papel com cuidado.

— Não quero incomodar.

— A senhora não está incomodando.

Mas precisamos pensar em outras pessoas para ajudar também.

Não é seguro depender só de mim ou das entregas.

Ela concordou.

— Seu Mauro tem uma chave reserva.

Podemos conversar com

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