única coisa que ainda estava sob meu controle.
Mantive minha resposta simples.
— Não vou dar acesso a você.
A expressão dele endureceu.
O que aconteceu depois veio em fragmentos: o som de um objeto caindo, a quina da cama, a chuva, o gosto metálico na boca, a voz de Ricardo repetindo meu nome quando percebeu que eu não reagia.
Quando voltei a ter alguma consciência, estava no chão frio do banheiro.
Água caía sobre meu rosto.
Eu não entendia por quê.
Ricardo falava sozinho.
— Você escorregou.
Foi isso.
Escorregou no boxe.
Abri os olhos por um instante.
Ele estava colocando em mim um maiô azul-marinho que eu usara numa viagem dois verões antes.
Mesmo sem conseguir me mover, compreendi.
Ele estava criando uma cena.
Molhou meu cabelo.
Espalhou água pelo chão.
Tirou minhas roupas e as colocou no cesto.
Depois me levou para o carro.
No caminho ao hospital, repetiu sua versão como quem ensaiava uma apresentação.
— Você caiu.
Eu ouvi o barulho.
Você estava no banho.
Foi um acidente.
No pronto-socorro, contou a mesma história três vezes.
Só não contava com o Dr.
André.
Depois que a polícia foi chamada, Ricardo tentou assumir o controle da situação como sempre fazia.
— Quero falar com a administração do hospital.
Ninguém respondeu.
— Minha esposa tem problemas psicológicos.
Vocês precisam registrar isso.
Um agente pediu que ele se afastasse do quarto.
— Não vou deixar minha mulher sozinha.
— Ela não está sozinha.
Ricardo olhou para mim.
Mesmo fraca, vi a ameaça silenciosa em seu rosto.
O Dr.
André também viu.
Fechou a cortina.
— Ele não entra novamente sem sua autorização — disse.
Pouco antes das quatro da manhã, Lívia recebeu meu arquivo automático.
Às cinco, estava no hospital.
Ela entrou no quarto com o cabelo preso às pressas, uma pasta debaixo do braço e os olhos cansados.
Quando me viu, parou.
— Meu Deus.
— Não diga isso — murmurei.
Ela se aproximou.
— Dizer o quê?
— Que eu devia ter saído antes.
Lívia puxou uma cadeira.
— Eu não vim julgar quando você conseguiu sair.
Vim garantir que ele nunca mais consiga fechar a porta atrás de você.
Contei sobre a agressão, o banheiro, o maiô e a história inventada.
Ela ouviu tudo sem interromper.
Depois abriu a pasta.
— O arquivo chegou.
— Tudo?
— Tudo.
Inclusive algo que eu ainda não tinha visto.
Ela mostrou um extrato.
Na semana anterior, Ricardo havia iniciado uma tentativa de empréstimo usando ações futuras do fundo como garantia.
Minha assinatura aparecia digitalmente no documento.
Eu nunca havia assinado nada.
— Isso é fraude — falei.
— Sim.
E cria exatamente o tipo de coerção financeira previsto na cláusula do seu pai.
Do corredor veio uma voz conhecida.
— Quero entrar agora.
Celeste.
Ela apareceu na porta pouco depois, impecável apesar do horário.
— Helena, querida.
A palavra querida quase me fez rir.
Lívia se levantou.
— A senhora não deveria estar aqui.
— Isso é assunto de família.
— Tornou-se assunto policial algumas horas atrás.
Celeste ignorou a frase e olhou para mim.
— Precisamos conversar sozinhas.
Recusei.
Ela insistiu.
Lívia permaneceu no quarto.
Por fim, Celeste abriu a bolsa e retirou um envelope.
— Ricardo cometeu um erro grave.
Ninguém está negando isso.
Mas transformar