A bofetada ecoou pela sala de parto às 10h42 da manhã.
Meu marido, Colin Reed, levou a mão ao rosto e ficou me encarando como se eu tivesse sido a pessoa que acabara de ultrapassar todos os limites.
Eu estava com oito centímetros de dilatação, uma faixa de monitoramento presa ao abdômen, suor escorrendo pelo pescoço e uma contração começando a subir pela minha coluna como fogo.
Mesmo assim, por alguns segundos, a dor física pareceu distante.
Eu só conseguia ouvir a frase que Colin tinha acabado de dizer.
“Eu paguei para trocarem seu embrião pelo de Vanessa.”
Vanessa Cole.
A antiga namorada que ele jurava não ver desde antes do nosso casamento.
A mulher cujo nome eu havia encontrado uma vez em um e-mail arquivado e que Colin descartara com um sorriso: “Coisa velha.
Nem lembrava que estava ali.”
Eu me chamava Leah Reed, tinha trinta e quatro anos e passara dois anos tentando engravidar.
Foram exames, injeções, hematomas no abdômen, hormônios que me faziam chorar ao ver comerciais de ração para cachorro, três transferências fracassadas e uma coleta de óvulos que me deixou com tanta dor que mal conseguia andar por dois dias.
Colin estivera ao meu lado em tudo.
Levava café.
Fazia piadas ruins.
Beijava minha testa antes de cada procedimento.
Agora, de terno escuro, ajoelhado ao lado da minha cama, ele me dizia que tudo aquilo também tinha sido cenário para outra coisa.
“Ela tem uma cardiopatia”, ele continuou.
“Uma gravidez seria perigosa.
Vanessa queria um filho.
Eu queria um filho.
Você conseguia carregar.
Eu achei que…
achei que todo mundo poderia sair ganhando.”
“Todo mundo?”
Minha voz saiu baixa.
Outra contração veio.
Apertei a grade da cama até os dedos doerem.
A enfermeira tinha saído por poucos minutos para buscar material, e Colin escolhera justamente aquele intervalo para confessar.
Não por culpa.
Por logística.
Foi então que vi a pasta de couro aos pés dele.
“Por que hoje?” perguntei.
Colin desviou os olhos para a porta.
“Leah, não começa.”
“Por que me contar enquanto eu estou em trabalho de parto?”
“Porque precisamos resolver algumas coisas antes do nascimento.”
Ele abriu a pasta.
Lá dentro havia documentos com meu nome.
“Só precisamos formalizar que Vanessa ficará com o bebê inicialmente.
Depois a gente conversa sobre o resto.”
O ar pareceu desaparecer da sala.
“Você veio aqui para eu dar à luz e entregar a criança.”
“Não simplifique desse jeito.”
“Você tentou transformar meu corpo em uma barriga de aluguel sem me contar.”
O rosto dele endureceu.
Colin sempre reagia mal quando as palavras certas desmontavam a versão confortável que ele criava para si mesmo.
“Você vai experimentar a maternidade, Leah.
Ninguém está tirando isso de você.”
Foi quando eu dei a bofetada.
A enfermeira entrou segundos depois e encontrou Colin com o rosto vermelho, eu chorando de raiva e uma caneta sendo empurrada na minha direção.
“Assine”, ele disse.
“É só uma autorização temporária.”
Eu nem toquei no papel.
“Tire meu marido daqui.”
A enfermeira, Jenna, não hesitou.
“Senhor, preciso que se afaste da paciente.”
“Ela está em trabalho de parto.
Está emotiva.”
“E acabou de pedir que o senhor saia.”
“Eu sou o pai.”
“E ela é a paciente.”
Jenna chamou a segurança pelo botão da parede.
Colin começou a falar rápido, dizendo que havia