ela naquele momento da gravidez.
Uma das mãos segurava a borda da pia.
A outra estava apoiada na barriga.
Ela parecia cansada de uma maneira que eu nunca tinha visto.
Não era apenas sono.
Era exaustão.
O rosto estava pálido, os cabelos presos de qualquer jeito e os olhos vermelhos como se ela tivesse passado muito tempo tentando segurar o choro.
“Clara.”
Ela se virou assustada.
Por alguns segundos, parecia que ela tinha sido pega fazendo algo errado.
Essa reação me destruiu.
“Você chegou cedo hoje”, ela disse, tentando sorrir.
“Eu ia preparar alguma coisa para você.”
Eu olhei para a pia cheia de louças.
Depois olhei para ela.
“Por que você está limpando isso?”
Ela desviou o olhar.
“Porque precisa ser feito.”
“Não foi isso que eu perguntei.”
O silêncio dela respondeu antes das palavras.
Peguei a panela das mãos dela e coloquei sobre a bancada.
“Clara, fala comigo.”
Ela respirou fundo.
“Eles disseram que era o mínimo que eu podia fazer.”
Meu corpo ficou imóvel.
“Quem disse?”
Ela fechou os olhos.
“Renato e sua tia.”
Naquele momento, uma mistura de raiva e culpa começou a crescer dentro de mim.
Eu tinha pedido para eles ficarem conosco por alguns dias.
Renato tinha perdido o emprego recentemente e disse que precisava de tempo para reorganizar a vida.
Márcia afirmou que estava ajudando porque ele não conseguiria fazer tudo sozinho.
Eu aceitei porque era minha família.
Porque eu lembrava de quantas vezes eles tinham me ajudado quando eu era mais novo.
Mas eu nunca imaginei que essa ajuda viraria uma permissão para ultrapassar limites dentro da minha própria casa.
“Há quanto tempo isso acontece?” perguntei.
Clara ficou olhando para o chão.
“Desde que você começou a pegar as horas extras.”
A resposta me atingiu.
“Desde quando?”
“Quase dois meses.”
Dois meses.
Durante dois meses, eu saía antes do sol nascer acreditando que estava protegendo minha família.
Enquanto isso, a mulher que carregava meu filho estava tentando sobreviver dentro da nossa própria casa.
“Por que você não me contou?”
Ela apertou os lábios.
“Porque eles diziam que você já estava sobrecarregado.”
“E você acreditou nisso?”
“Eu queria acreditar que eles estavam tentando ajudar.”
Aquela frase doeu mais do que qualquer acusação.
Clara não estava tentando esconder por falta de confiança em mim.
Ela estava tentando evitar uma guerra.
Ela sempre foi assim.
Pensava primeiro nos sentimentos dos outros e só depois nos próprios.
Antes que eu pudesse responder, ela colocou a mão na barriga e fechou os olhos.
“Espera…”
A voz dela mudou.
Eu imediatamente a segurei.
“Está doendo?”
Ela assentiu devagar.
Meu coração acelerou.
Peguei uma cadeira e ajudei ela a sentar.
Foi nesse momento que um prato caiu na cozinha e se quebrou.
O barulho ecoou pela casa.
Eu esperei ouvir passos.
Alguma preocupação.
Qualquer reação.
Nada.
Da sala, ouvi Renato rindo do jogo.
Como se nada estivesse acontecendo.
Como se a mulher grávida na cozinha não fosse alguém da família dele.
Depois que Clara conseguiu respirar melhor, eu fui até a sala.
Renato percebeu meu olhar.
“Que cara é essa?”
Coloquei o controle sobre a mesa.
“Quero conversar.”
Ele suspirou.
“Lá vem.”
Aquela resposta me surpreendeu.
Não havia arrependimento.
Havia irritação.
Como se eu fosse o problema por questionar.
“Minha esposa está grávida de sete meses e está limpando