Minha irmã tomou minha casa para uma festa — até a polícia chegar

— Não — respondi.

— Apenas estabilize a madeira.

Ele pareceu surpreso.

— Quer deixar a marca?

Passei os dedos sobre o risco.

— Quero.

Meses depois, numa manhã de outubro, sentei sozinha na sala com café enquanto o sol atravessava as janelas.

A casa estava silenciosa novamente.

Não o silêncio pesado que veio depois da morte de Daniel.

Era outro tipo de silêncio.

O silêncio de um lugar que me pertencia por inteiro.

Sobre o aparador havia uma fotografia minha com Daniel durante a reforma da casa.

Nós dois estávamos cobertos de poeira, sorrindo diante de uma parede ainda sem pintura.

A pequena cicatriz na madeira aparecia logo abaixo da moldura.

Eu costumava achar que preservar a paz significava ceder antes que alguém ficasse irritado.

Agora sabia que aquilo nunca tinha sido paz.

Era apenas ausência de resistência.

Camila acreditou que poderia transformar minha casa em palco porque durante anos eu havia permitido que minha vida funcionasse como bastidor para a dela.

Naquela noite, pela primeira vez, eu não gritei, não implorei e não tentei fazê-la compreender.

Eu simplesmente disse não — e permiti que a palavra tivesse consequência.

Peguei minha xícara e olhei para a luz refletida naquela fina marca do móvel.

Daniel tinha razão.

Algumas pessoas só aprendem onde termina o espaço delas quando, finalmente, encontram uma porta que não se abre.

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