Ela pegou a taça, mas não bebeu.
“Tenho dívidas.”
“Que dívidas?” Rafael perguntou.
Teresa lançou ao filho um olhar frio.
“Não interessa.”
Camila quase riu.
Ali estava a ironia perfeita: a mulher que exigia transparência absoluta sobre as finanças da nora agora defendia o próprio segredo.
“Interessa bastante”, Camila respondeu.
“Especialmente quando vocês tentaram usar meu dinheiro para pagar.”
Teresa levantou-se.
“Não preciso ser interrogada na minha casa.”
“Então não tente acessar minha conta na sua casa, na minha casa ou em qualquer outro lugar.”
Rafael pediu que ambas se acalmassem.
Camila nem olhou para ele.
“Você ainda acha que o problema é o tom da conversa?”
Ele respirou fundo.
“Eu errei.”
“Você falsificou minha assinatura.”
“Eu não ia transferir sem falar com você.”
Camila abriu a pasta numa página marcada.
“A solicitação incluía autorização automática para transferências até sessenta mil.
Não precisava de nova confirmação minha.”
Rafael não respondeu.
Teresa sentou-se outra vez.
Pela primeira vez, parecia menor.
Camila fechou a pasta.
“O banco já bloqueou tudo.
Troquei senhas, dispositivos, códigos e limites.”
Rafael ergueu a cabeça.
“Você foi ao banco?”
“Na terça-feira.”
Ele entendeu imediatamente.
Camila sabia havia cinco dias.
“Então por que veio jantar?”
“Porque eu precisava descobrir se sua mãe sabia.”
Teresa empalideceu.
“Você armou uma armadilha?”
“Não.
Eu apenas deixei vocês falarem.”
Rafael se levantou.
“Camila, vamos para casa.”
“Eu não vou para casa com você.”
Ele congelou.
“O quê?”
“Minha irmã já pegou algumas coisas minhas esta tarde.
Vou ficar com ela.”
Rafael parecia genuinamente chocado.
Como se falsificar a assinatura da esposa fosse um erro negociável, mas dormir em casas separadas fosse uma reação extrema.
“Você está terminando nosso casamento por causa disso?”
Camila ficou de pé.
“Ainda não sei o que estou terminando.
Mas sei o que terminou hoje.”
“O quê?”
“A confiança.”
Ela saiu da sala.
Rafael a seguiu até o corredor.
“Camila, espera.”
Ela se virou.
“Você teve seis chances de parar.”
“Seis?”
“Foram seis acessos à minha conta.”
A expressão dele mudou.
Teresa apareceu atrás do filho.
“Você disse que só tinha entrado uma vez.”
Rafael olhou para ela furioso.
“Agora não, mãe.”
Camila observou os dois.
Havia alguma coisa errada.
Não apenas no fato de Teresa saber dos acessos.
Mas no modo como reagira ao número.
“Você não sabia dos seis?” Camila perguntou.
Teresa cruzou os braços.
“Não tenho mais nada a dizer.”
Camila entrou no elevador.
As portas estavam quase fechando quando Rafael colocou a mão entre elas.
“Por favor.
Só me deixa explicar uma coisa.”
Camila segurou a pasta contra o corpo.
“Amanhã.
Com um advogado presente.”
As portas se fecharam.
No térreo, seu telefone vibrou.
Uma mensagem de um número desconhecido.
Havia uma foto anexada.
Camila abriu.
Era sua escrivaninha.
A gaveta onde guardava documentos estava aberta.
Pastas haviam sido colocadas sobre a mesa.
A imagem parecia ter sido tirada de dentro da sala.
No vidro da janela, havia um reflexo parcial.
Uma mulher.
Camila aumentou a imagem.
O cabelo era curto.
Teresa usava o cabelo na altura dos ombros.
Abaixo da fotografia, uma frase:
“Ele não foi o primeiro a mexer nas suas coisas.”
Camila ligou imediatamente para a irmã, Júlia.
“Você está no meu apartamento?”
“Sim.
Por quê?”
“Tranca a porta.”
Júlia ficou séria na mesma hora.
“O que aconteceu?”
Camila explicou rapidamente.