Gabriel.
O problema começou ali.
Quando acordou quatro dias depois, não sabia quem era.
Não reconhecia o próprio rosto.
Não sabia sua idade, endereço ou família.
Uma assistente administrativa informou que uma mulher havia aparecido no hospital alegando reconhecer a paciente como Elisa Hart, uma conhecida sem parentes próximos na região.
Essa mulher também apresentou documentos para que a paciente fosse transferida para Cedar Grove, uma clínica particular de reabilitação neurológica no interior do estado.
Durante meses, Amélia aceitou o nome Elisa porque não tinha outro.
A clínica era legítima.
Os médicos realmente cuidaram dela.
A equipe acreditava estar tratando uma mulher sem família cujo responsável financeiro desejava privacidade.
As contas eram pagas regularmente por uma empresa chamada North Shore Consulting.
Ninguém questionava muito.
Amélia tinha dificuldade para formar memórias novas.
Sofria dores de cabeça, crises de desorientação e longos períodos em que palavras simples desapareciam.
Um ano passou.
Depois outro.
Então, numa tarde, uma enfermeira entrou no quarto empurrando um carrinho de brinquedos doados para pacientes que recebiam visitas de crianças.
Entre os brinquedos havia um pequeno barco vermelho.
Amélia tocou nele.
E ouviu uma voz em sua mente.
Mamãe, barco.
Foi apenas um fragmento.
Mas ela começou a chorar sem entender por quê.
Nas semanas seguintes vieram outros flashes: uma cozinha branca, um homem rindo enquanto queimava panquecas, um bebê dormindo em seu peito, o cheiro de tinta fresca em um quarto azul-claro.
A Dra.
Miriam Cole, neuropsicóloga da clínica, percebeu que aquilo não parecia fantasia.
Ela começou a trabalhar com Amélia para reconstruir suas lembranças sem sugerir respostas.
O nome Oliver surgiu primeiro.
Depois Daniel.
Por fim, uma manhã, Amélia acordou gritando um nome que não pronunciava havia quase dois anos.
Celeste.
Ela não sabia por que aquele nome lhe provocava medo.
Miriam começou a desconfiar da história registrada na admissão.
Com autorização de Amélia e auxílio policial, impressões digitais foram comparadas a registros oficiais.
O resultado mudou tudo.
Elisa Hart não existia.
As digitais pertenciam a Amélia Mercer, desaparecida havia mais de dois anos.
O detetive Marcus Hale reabriu o caso discretamente.
Amélia poderia ter ligado imediatamente para Daniel.
Ela quase ligou.
Então pesquisou seu nome.
A primeira fotografia que apareceu mostrava Daniel ao lado de Celeste, anunciando o noivado.
Amélia ficou olhando a imagem durante quase uma hora.
Seu cérebro ainda estava cheio de buracos, e uma das poucas lembranças ligadas ao hospital era uma voz feminina perto da porta dizendo: Ele já acredita que ela se foi.
Ela não conseguia ter certeza de quem pronunciara aquelas palavras.
E não sabia se Daniel havia participado de alguma coisa.
Por isso concordou em permanecer fora de vista enquanto Marcus verificava os registros.
Três semanas depois, uma oportunidade inesperada apareceu.
A empresa temporária que fornecia funcionários para a mansão Mercer precisava de reforços para um jantar beneficente.
Amélia ainda possuía documentos emitidos durante seu período como Elisa Hart.
Ela decidiu entrar na casa por uma única noite.
Marcus tentou convencê-la a não fazer isso.
Ela recusou.
— Preciso olhar para meu marido antes de decidir se consigo acreditar nele — disse.
Durante quase duas horas na mansão, Amélia trabalhou sem ser notada.
Viu fotografias que lembrava e outras tiradas depois de seu desaparecimento.
Viu brinquedos de Oliver perto da escada.
Viu uma fotografia do próprio memorial em