gostado da ideia.
Sorri, mas meus olhos ficaram úmidos.
— Acho que ele teria insistido para eu escolher um hotel melhor.
Rimos.
Então entrei no carro e fui para o aeroporto.
Durante o voo, tive dificuldade para dormir.
Não era medo da viagem.
Era aquela estranha sensação de estar fazendo algo proibido, mesmo sabendo que não havia cometido erro algum.
Passei tantos anos colocando as necessidades alheias antes das minhas que descansar parecia uma forma de desobediência.
Cheguei a Lisboa na véspera de Natal.
A cidade estava iluminada, as vitrines decoradas e as ruas cheias de pessoas carregando sacolas e pequenos embrulhos.
Deixei a bagagem no hotel e saí para caminhar.
Parei diante de uma livraria, comprei um pequeno caderno e escrevi na primeira página: Natal em Lisboa.
Minha primeira viagem escolhida por mim.
Mais tarde, encontrei uma cafeteria tranquila e pedi um café e um doce.
Na mesa ao lado, um casal de idosos dividia uma fatia de bolo.
O homem colocou cuidadosamente um guardanapo no colo da esposa, e aquele gesto simples me fez lembrar de Augusto.
Senti saudade, mas não a tristeza sufocante que costumava acompanhar as recordações.
Pela primeira vez, a saudade parecia estar sentada comigo, sem exigir que eu abandonasse o momento.
Naquela noite, caminhei até um ponto de onde podia ver o Tejo.
Tirei o cartão-postal da bolsa e o comparei com a paisagem.
— Consegui chegar, Augusto — murmurei.
Guardei o cartão e voltei para o hotel.
Não fazia ideia do que estava acontecendo em Providence.
Na manhã de Natal, acordei cedo, tomei banho e saí para procurar uma confeitaria aberta.
Encontrei uma pequena perto da praça onde havia caminhado no dia anterior.
Pedi café, sentei perto da janela e observei as poucas pessoas passando pela rua.
Foi quando meu celular começou a vibrar.
Primeiro Rafael.
Depois Luísa.
Depois números que eu não conhecia.
O aparelho parava durante alguns segundos e recomeçava.
Olhei para a tela.
Sete chamadas perdidas de Rafael, quatro de Luísa e três de números desconhecidos.
Por um instante, pensei que alguém estivesse doente.
Atendi.
— Rafael? Aconteceu alguma coisa?
Ele estava falando tão depressa que mal conseguia respirar entre uma frase e outra.
— Mãe, onde você está? Por que a casa está trancada? Por que mudou as fechaduras?
— Estou em Lisboa.
Eu avisei que viajaria.
— Tem vinte e cinco pessoas aqui! Todo mundo trouxe comida, presentes, decoração! O chaveiro disse que não pode abrir sem autorização da proprietária!
Mantive a voz calma.
— E ele está certo.
— Mãe, você não entende.
Meus sogros trouxeram um caminhão cheio de caixas.
Eles estão achando que vão morar aí!
Apertei a xícara com força.
— Morar onde, Rafael?
O silêncio que veio depois me disse que a situação era mais grave do que uma festa inconveniente.
— Na sua casa.
A Luísa disse que você concordou em deixá-los ficar por dezoito meses.
— Eu nunca concordei com isso.
— Ela tem um documento, mãe.
Um contrato com sua assinatura.
Senti a garganta secar.
— Fotografe e me mande agora.
Alguns segundos depois, uma imagem apareceu no celular.
O documento tinha meu nome completo, meu endereço e uma cláusula concedendo aos pais de Luísa o uso gratuito da propriedade durante dezoito meses.
Havia uma assinatura que parecia minha.
Mas