Helena recusou pedidos de explicação.
Não queria transformar aquilo em espetáculo maior do que já era.
Às duas da manhã, voltou para Teresópolis com a irmã, Teresa.
Quando o carro passou pelo portão da Quinta do Cedro, Helena viu marcas recentes no metal onde o caminhão havia tocado.
Augusto a esperava na varanda.
— Sinto muito — disse ele.
— Você não tem pelo que sentir.
Dentro da biblioteca, Helena encontrou tudo exatamente como deixara.
A manta sobre a poltrona de Álvaro.
Os livros.
A caixa de cartas.
Só então permitiu que as mãos tremessem.
Teresa preparou chá e ficou em silêncio.
Depois de alguns minutos, Helena disse:
— Se Rafael tivesse pedido, eu teria deixado os pais dela ficarem algumas semanas na casa menor perto do pomar.
Teresa assentiu.
— Eu sei.
— Talvez seja isso que mais me dói.
Não era avareza.
Não era orgulho.
Era terem concluído que seria mais fácil tomar sua escolha do que respeitá-la.
Na manhã seguinte, Helena procurou uma advogada e registrou formalmente o ocorrido.
Entregou as imagens das câmeras e a autorização com sua assinatura copiada.
Também cancelou todos os códigos de acesso antigos que Rafael ainda possuía.
Não o deserdou.
Não apagou seu número.
Mas estabeleceu uma fronteira que deveria ter sido desnecessária.
Rafael apareceu quatro dias depois.
Sozinho.
Helena o encontrou sentado no degrau da varanda, usando jeans e uma camisa amassada.
— Bianca não veio? — perguntou.
— Não estamos juntos agora.
Helena abriu a porta.
— Entre.
Na biblioteca, Rafael demorou vários minutos para falar.
— Eu queria que ela gostasse de mim o suficiente para acreditar que eu podia resolver tudo — disse por fim.
— Cada vez que ela dizia que minha família tinha mais do que precisava, eu achava que ajudar a família dela provaria alguma coisa.
— E eu virei o recurso que você pretendia usar.
Ele fechou os olhos.
— Sim.
A sinceridade não apagou a dor.
Mas impediu que ela aumentasse.
— Você sabia que eu não concordaria — disse Helena.
— Sabia.
— Então escolheu me contar depois que eles já estivessem dentro.
— Sim.
— Isso foi uma traição, Rafael.
Ele assentiu.
— Eu sei.
Helena percebeu que esperava uma defesa.
Uma desculpa.
Uma tentativa de transferir tudo para Bianca.
Ele não fez isso.
— Não quero que você me perdoe hoje — disse Rafael.
— Só quero parar de mentir sobre a parte que foi minha.
Foi a primeira coisa correta que ele fizera desde o casamento.
Nos meses seguintes, Helena acompanhou o caso da assinatura falsificada por meio dos canais legais adequados.
Sérgio acabou admitindo que pedira a preparação do documento usando uma assinatura digitalizada fornecida por Bianca.
A família alegou desespero financeiro, mas desistiu de qualquer tentativa relacionada à Quinta.
Bianca e Rafael permaneceram separados.
A confiança entre eles havia se quebrado antes mesmo de o bolo do casamento ser cortado.
Helena não celebrou isso.
Fracassos conjugais não eram vitórias.
No início do verão, Rafael voltou à Quinta com uma caixa de ferramentas.
— Augusto disse que o telhado do antigo estúdio está vazando — explicou.
Helena cruzou os braços.
— E desde quando você sabe consertar telhado?
— Desde nunca.
Por isso ele vai me supervisionar.
Ela quase sorriu.
Durante semanas, Rafael apareceu aos sábados.
Não