Quando Daniel Azevedo entrou no Hotel Bellmont carregando a filha adormecida no colo, ninguém imaginou que o homem de jaqueta gasta e mochila molhada pela chuva era dono daquele edifício inteiro.
Mas a pior descoberta daquela noite não seria o desprezo dos funcionários.
Seria perceber que sua esposa, morta havia quatro anos, deixara naquele hotel algo que ele jamais soubera que existia.
Daniel atravessou as portas giratórias pouco depois das dez da noite.
A tempestade transformava as avenidas do centro de São Paulo em espelhos escuros, e a água ainda escorria dos ombros de sua jaqueta.
Clara, de sete anos, dormia profundamente contra seu peito.
A menina tinha passado o dia inteiro entre filas, cancelamentos e mudanças de portão no aeroporto.
Agora segurava um coelho de pelúcia cinza com uma das orelhas remendada.
O brinquedo pertencera à mãe.
Daniel carregava na outra mão uma pequena caixa de madeira protegida por um saco transparente improvisado.
Dentro dela estavam as cartas de Marina.
Durante os últimos meses de tratamento contra um câncer agressivo, Marina escreveu dezenas de bilhetes para Clara.
Alguns deveriam ser lidos em aniversários.
Outros, em dias difíceis.
Havia uma carta para quando a filha perdesse o primeiro dente, outra para quando se apaixonasse pela primeira vez e uma que Daniel não tinha coragem de abrir, destinada ao dia em que Clara perguntasse por que a mãe precisara partir.
A cada aniversário da morte de Marina, Daniel escolhia com Clara uma das cartas marcadas para aquela data.
Naquele ano, ele havia decidido levá-la ao Bellmont.
Marina trabalhara na recepção do hotel durante a faculdade, muito antes de Daniel possuir qualquer empresa.
Os dois haviam se conhecido ali durante um evento universitário.
Anos depois, ele voltara ao mesmo saguão e, diante de uma fonte que já nem existia mais, pedira Marina em casamento.
Daniel desejava mostrar o lugar à filha.
Queria contar uma história feliz antes de abrir outra carta triste.
Ele se aproximou do balcão.
A recepcionista ergueu os olhos lentamente.
Seu crachá dizia Renata Silveira.
— Boa noite.
Tenho uma reserva no nome de Daniel Azevedo.
Renata observou a mochila, a jaqueta e os sapatos molhados antes de tocar no teclado.
— Documento.
Com cuidado para não acordar Clara, Daniel pegou a carteira e entregou sua identidade.
Renata digitou por alguns segundos.
— Não há reserva nesse nome.
— Poderia verificar novamente? Foi feita pelo escritório institucional há duas semanas.
Um segundo funcionário, Bruno, aproximou-se.
— Estamos lotados por causa da convenção médica — disse ele.
— Não temos quartos disponíveis para encaixe.
— Não estou pedindo encaixe.
Estou dizendo que tenho uma reserva.
Renata suspirou.
— Senhor, talvez tenha ocorrido confusão com outro hotel.
Daniel olhou para o grande símbolo dourado do Bellmont atrás do balcão.
— Não ocorreu.
Bruno soltou um pequeno riso.
— Acontece bastante.
As pessoas veem fotos na internet e acabam confundindo nomes.
Daniel sentiu o peso familiar da irritação, mas não respondeu de imediato.
Clara se mexeu em seu ombro.
Ele ajustou o corpo da filha e passou a mão em seus cabelos.
Aquela noite não era sobre orgulho.
— Existe um sistema secundário para reservas institucionais — ele disse.
— Poderiam verificar lá?
Renata cruzou os braços.
— Senhor, nós trabalhamos aqui.
Sabemos como funciona o sistema.
— Então por favor verifiquem.