a rua em ondas.
Daniel chamou a senhora.
Ela se aproximou desconfiada.
— Meu nome é Daniel.
A senhora tem reserva?
— Helena Moura.
Meu filho fez pela internet.
Talvez eu tenha entendido alguma coisa errada.
— A senhora não fez nada errado.
Teresa foi ao computador.
Encontrou a reserva em menos de um minuto.
Estava paga.
Havia ainda uma anotação visível para a equipe: hóspede idosa, pós-operatório oftalmológico, auxiliar com bagagem e evitar espera prolongada.
Daniel leu a observação duas vezes.
— Quem viu isso quando ela chegou?
Ninguém respondeu.
— Quem abriu a reserva?
Bruno respirou fundo.
— Eu.
— E leu a observação?
Ele não conseguiu sustentar o olhar.
Clara acordou naquele instante.
— Papai?
— Estou aqui.
A menina piscou, desorientada.
— Já chegamos?
— Chegamos.
Ela viu Helena.
— Ela também está esperando quarto?
Daniel sorriu tristemente.
— Estava.
Clara olhou para o coelho de pelúcia e depois para a mulher.
— A senhora está sozinha?
Helena sorriu.
— Só até meu filho chegar amanhã.
Clara pensou por alguns segundos.
— Minha mãe dizia que quando alguém está sozinho, a gente fica perto até passar a parte ruim.
A frase atravessou Daniel como uma lembrança física.
Marina dizia aquilo.
Sempre dissera.
Quando alguém está sozinho, fique perto até passar a parte ruim.
Helena levou a mão à boca.
— Quem era sua mãe, querida?
— Marina.
A senhora parou.
Seu olhar desceu até a pequena caixa de madeira nas mãos de Daniel.
Na tampa havia uma placa antiga gravada com o nome da esposa.
— Marina Azevedo? — Helena perguntou.
Daniel franziu a testa.
— A senhora a conheceu?
Helena ficou visivelmente emocionada.
— Conheci.
Renata e Bruno permaneceram imóveis, esquecidos por um instante.
Helena contou que, vinte e dois anos antes, trabalhava como costureira terceirizada para o hotel.
Marina era uma jovem recepcionista que estudava à noite e muitas vezes ficava além do turno para ajudá-la a organizar notas e formulários.
— Eu tinha acabado de perder meu marido — Helena explicou.
— Meu filho era adolescente.
Eu estava endividada e quase perdi o apartamento.
Sua esposa foi uma das poucas pessoas que me tratou como se eu ainda tivesse algum valor.
Daniel engoliu em seco.
— Isso parece muito com ela.
Helena sorriu.
— Sim.
Então sua expressão mudou.
— Mas existe outra coisa.
Ela abriu a pequena bolsa que carregava.
Retirou um molho de chaves e separou uma chave antiga de latão presa a uma fita azul.
— Marina me deu isso muitos anos depois, quando já estava doente.
Daniel ficou imóvel.
— Quando?
— Uns cinco meses antes de morrer.
Ele sentiu um aperto no peito.
Marina nunca mencionara ter reencontrado Helena.
— Por que ela lhe deu uma chave?
— Ela disse que um dia você talvez voltasse aqui com sua filha.
E que, se isso acontecesse, eu saberia o que fazer.
Daniel encarou a chave.
— Isso não faz sentido.
Helena assentiu.
— Eu também achei que não faria.
O gerente de plantão chegou naquele momento.
Chamava-se Marcelo Prado.
Estava sem fôlego e claramente apavorado.
— Senhor Azevedo, fui informado do ocorrido.
Quero pedir desculpas pessoalmente e garantir que haverá consequências imediatas.
Daniel olhou para ele.
— Haverá investigação, não espetáculo.
Marcelo assentiu.
— Claro.
— Amanhã quero seis