“Desculpe…
nós conhecemos você?”
Helena se levantou.
“Helena Duarte.
Sou advogada da Isabela.”
O pai franziu a testa.
“Advogada?”
A mãe olhou para Isabela.
“O que uma advogada está fazendo aqui?”
“Meu trabalho.”
“Que trabalho?”
Isabela respirou com cuidado para controlar a dor.
“Eu atualizei meu planejamento patrimonial.”
O pai deu uma risada curta.
“Agora? Depois de um acidente?”
Helena respondeu antes que Isabela precisasse.
“A capacidade cognitiva dela foi confirmada.
Ela tomou as decisões voluntariamente.”
A mãe puxou uma cadeira.
“Isabela, isso é ridículo.
Você está chateada porque demoramos algumas horas?”
A palavra algumas quase fez a raiva voltar.
Mas a raiva já começava a desaparecer.
No lugar dela havia algo mais frio.
Clareza.
“Eu liguei oito vezes.”
“Nós estávamos ocupados.”
“Eu estava em um hospital depois de uma cirurgia.”
“E cercada de médicos!”, a mãe respondeu.
“A Camila estava no meio de uma mudança sem ajuda suficiente.”
O quarto ficou silencioso.
Até o pai pareceu perceber o peso da frase.
Isabela falou devagar.
“Então esse é o critério? Se eu tenho médicos, não preciso da minha mãe?”
“Não distorce o que eu disse.”
“Não preciso distorcer.”
O pai tentou encerrar o assunto.
“Você está cansada e medicada.
Amanhã conversamos sobre isso.”
“Amanhã não muda o que aconteceu hoje.”
Ele olhou para Helena.
“O que ela fez?”
Helena manteve a postura profissional.
“Essa é uma questão confidencial.”
“Eu estou perguntando para minha filha.”
Isabela respondeu.
“Retirei vocês como beneficiários principais.”
O pai parou de falar.
A mãe piscou rapidamente.
“O quê?”
“A casa do litoral também não será mais de vocês.”
“Isabela…”
“A autorização da conta emergencial foi cancelada.”
O pai se aproximou um passo.
“Você está fazendo isso por vingança.”
“Não.
Se fosse vingança, eu tentaria machucar vocês.
Estou apenas parando de estruturar minha vida como se eu pudesse contar com vocês em uma emergência.”
A mãe levou a mão ao peito.
“E a Camila?”
“Ela também saiu.”
“Você não pode fazer isso com sua irmã por causa de uma tarde!”
“Não é por causa de uma tarde.
A tarde só tornou impossível continuar fingindo que o padrão não existe.”
A mãe começou a chorar, mas Isabela não sentiu a culpa automática que normalmente aparecia.
Em vez disso, lembrou de todas as vezes em que engolira desapontamentos para não ser chamada de sensível.
O pai parecia calcular algo.
Então fez a pergunta.
“E a fundação?”
Foi ali que algo se rompeu definitivamente.
Não porque ele estivesse preocupado com a fundação.
Mas porque, depois de tudo que acabara de ouvir, aquela foi sua prioridade.
Isabela encarou o pai por alguns segundos.
“Vocês não estarão mais no conselho.”
Ele empalideceu.
“Você já tinha prometido isso.”
“Eu também achava que vocês apareceriam quando minha vida estivesse em risco.”
Antes que ele respondesse, a porta se abriu.
Denise entrou acompanhada do cirurgião, doutor Fábio Meireles.
A expressão dele mudou completamente o ambiente.
“Isabela, seus exames mostraram uma alteração que não estava presente pela manhã.
Precisamos repetir a imagem agora.”
A mãe se virou.
“Que alteração?”
O médico olhou para Isabela antes de responder.
“Existe suspeita de sangramento.
Ainda não sabemos a extensão.”
O pai segurou a cadeira.
“Mas ela estava bem.”
“Ela estava estável.
Não é a mesma coisa.”
A frase caiu como uma sentença.
Enquanto a equipe preparava a cama para