alguns dias na unidade neonatal por dificuldades respiratórias transitórias.
Ver meu filho dentro de uma incubadora foi uma das experiências mais assustadoras da minha vida.
Eu visitava o setor sempre que os profissionais permitiam, colocava a mão perto da dele e contava histórias baixinho.
Falava sobre o quarto que preparara, as roupas pequenas e o avô que já havia comprado um carrinho.
Vicente reagiu bem ao tratamento, evoluiu e recebeu alta sem diagnóstico de doença cardíaca ou indicação de cirurgia.
Mas a recuperação da cesariana e os dias de internação me deixaram exausta.
Minha mãe ofereceu um quarto na casa dela.
“Fique conosco durante algumas semanas”, disse.
“Você não precisa enfrentar tudo sozinha.”
Aceitei.
Na primeira noite, ela pediu as chaves do sedã.
“Vou guardar enquanto você se recupera.
Assim ninguém precisa mexer no carro.”
Dois dias depois, Camila começou a utilizá-lo.
Primeiro, minha mãe disse que era para buscar remédios.
Depois, para transportar mercadorias da loja.
Em seguida, afirmou que minha irmã precisava resolver assuntos urgentes e que eu não estava em condições de dirigir.
Quando pedi as chaves para levar Vicente ao primeiro acompanhamento, ouvi que o carro estava sem combustível.
Na consulta seguinte, disseram que precisava trocar uma peça.
Na terceira ocasião, minha mãe afirmou que eu estava sendo ingrata.
“Você tem teto, comida e gente cuidando de você.
Sua irmã está tentando manter uma empresa funcionando.”
Eu sabia que a loja de Camila atravessava dificuldades, mas desconhecia a dimensão do problema.
Havia cobranças chegando pelo correio e telefonemas que minha mãe atendia do lado de fora.
Meu pai, Paulo, começou a passar longos períodos calado na cozinha, examinando planilhas e extratos.
Sempre que eu entrava, as conversas terminavam.
Certa noite, ouvi minha mãe dizer a Camila:
“Quando o dinheiro cair, acertamos primeiro o aluguel atrasado.”
Pensei que falassem de alguma venda da loja.
Não perguntei.
Eu estava ocupada tentando dormir entre mamadas, esterilização de mamadeiras e as preocupações normais de uma mãe com um bebê prematuro.
Também comecei a perceber que o dinheiro estava desaparecendo.
Meu avô me telefonara alguns dias antes perguntando se eu havia recebido a ajuda para comprar os produtos necessários a Vicente.
“Que ajuda?”, perguntei.
Ele pareceu confuso, mas minha mãe estava perto de mim.
Pegou o telefone e explicou que o depósito havia sido feito na conta usada para as despesas da casa.
Depois da ligação, disse que meu avô estava ficando esquecido.
“Não vale a pena incomodá-lo com assuntos financeiros”, acrescentou.
Quis acreditar.
Na manhã daquele dia de julho, o leite indicado para Vicente estava acabando.
Eu precisava ir à farmácia, mas Camila havia saído com o carro novamente.
Pedi à minha mãe que cuidasse dele por vinte minutos.
Ela nem levantou os olhos do celular.
“Tenho coisas para fazer.
Você é mãe.
Precisa aprender a se virar.”
Pensei em chamar um transporte por aplicativo, mas minha conta estava praticamente zerada.
Minha mãe também não quis me emprestar dinheiro.
Peguei a bicicleta antiga que ficava na garagem.
Imaginei que conseguiria conduzi-la devagar por um trecho seguro e, se necessário, seguir a pé.
Não cheguei ao fim da primeira quadra.
O pneu traseiro esvaziou, tornando impossível continuar pedalando.
Voltei a verificar se Vicente estava bem acomodado no carregador junto ao meu corpo, cobri a cabeça dele e comecei a empurrar a