a parte mais dolorosa para ela.
Não era apenas ter sido colocada para fora.
Era descobrir que alguém havia decidido, enquanto ela comprava pão e remédios, que ela não poderia mais entrar em casa.
Augusto caminhou ao redor do terreno.
Marcelo conhecia quase todas as mudanças feitas na residência nos últimos anos, mas desconhecia uma peculiaridade antiga.
Atrás da pequena oficina havia uma porta de serviço instalada quando Augusto construíra a ampliação da garagem.
A fechadura ainda era mecânica.
Ele mantinha a chave presa ao chaveiro de trabalho.
A porta abriu com um clique seco.
Helena entrou primeiro.
Da sala, vieram vozes.
— Se derrubar essa parede, a cozinha ganha quase três metros — dizia Camila.
— E depois podemos trocar aquele armário antigo.
— Primeiro precisamos resolver os documentos — Marcelo respondeu.
Augusto caminhou pelo corredor.
Quando entrou na sala, viu o filho segurando uma fita métrica e Camila folheando um catálogo de móveis.
Os dois ficaram imóveis.
— Pai? — Marcelo disse.
— Como você entrou?
Augusto colocou a mala de Helena no chão.
— Sua mãe estava do lado de fora.
Marcelo soltou o ar pelo nariz.
— Eu ia explicar.
— Explique.
Camila fechou o catálogo.
— Talvez todos estejam muito nervosos.
A ideia não era expulsar ninguém.
Helena se virou para ela.
— Você colocou minhas roupas numa mala.
Camila hesitou.
— Era temporário.
— Você escolheu até meu pijama.
A simplicidade da frase deixou o ambiente pesado.
Marcelo apontou para a mesa.
— Vamos sentar.
Precisamos conversar como adultos.
Augusto permaneceu de pé.
— Você começa.
O filho respirou fundo.
— A casa é grande demais para vocês.
Tem manutenção, imposto, segurança.
Eu vinha tentando conversar sobre isso, mas vocês sempre mudavam de assunto.
— Então você trocou as fechaduras.
— Eu precisava mostrar que a situação não podia continuar indefinidamente.
— Qual situação?
Marcelo lançou um olhar para Camila antes de responder.
— Vocês estão sentados em cima de um patrimônio enorme sem planejamento.
Mais cedo ou mais tarde essa casa vai ser minha e da Júlia.
Júlia era a irmã mais nova dele, que morava em outra cidade.
Helena empalideceu.
— Mais cedo ou mais tarde?
Marcelo percebeu a frase que havia usado, mas não recuou.
— Vocês sabem o que eu quis dizer.
Augusto sentiu uma clareza desconfortável.
— Você disse para sua mãe que eu tinha concordado em colocar a casa no seu nome.
— Nós conversamos sobre planejamento sucessório.
— Conversamos sobre organizar documentos.
Nunca autorizei transferência alguma.
Marcelo cruzou os braços.
— Pai, você assinou uma procuração para mim no ano passado.
Ali estava a primeira pista concreta.
A procuração havia sido assinada para que Marcelo vendesse uma antiga caminhonete enquanto Augusto se recuperava de uma cirurgia no joelho.
Era específica, limitada e relacionada somente ao veículo.
— Aquela procuração não envolve esta casa.
O rosto de Marcelo mudou quase imperceptivelmente.
Augusto viu.
E soube que havia acertado em desconfiar.
Ele puxou uma cadeira.
— Certo.
Já que você quer falar de documentos, vamos falar de documentos.
Tirou o telefone do bolso e ligou para Roberto Nogueira, advogado da família havia mais de vinte anos.
— Roberto, preciso que venha aqui.
Traga a pasta azul.
Marcelo franziu a testa.
— Que pasta azul?
Augusto desligou.
— Aquela que