Não queria que ele recusasse por orgulho, nem que tratasse o dinheiro como presente por vir de mim.
Depois parei de acompanhar o caso pessoalmente.
Até Helena descobrir que três parcelas estavam atrasadas.
Pior: parte relevante dos recursos tinha sido desviada da finalidade informada.
Havia despesas pessoais, viagens, joias e transferências para uma conta que eu não reconhecia.
Durante três meses, fiquei em silêncio.
Eu queria ouvir Renato antes de concluir qualquer coisa.
Naquele jantar, ele me deu mais do que uma explicação.
Deu-me uma demonstração de caráter.
Levantei-me e fui até o aparador.
O envelope que Helena me entregara estava na segunda gaveta.
Quando voltei, Renato acompanhou cada movimento.
— O que é isso? — perguntou.
Coloquei o envelope sobre a mesa.
— Uma coisa que diz respeito ao seu futuro.
Marina franziu a testa.
Abri o envelope e tirei uma cópia do contrato de crédito.
Renato ficou imóvel assim que viu o nome da empresa na primeira página.
— Onde conseguiu isso?
— Leia o credor.
Ele leu.
Horizonte Gestão Patrimonial Ltda.
Seu rosto mudou.
— Nunca ouvi falar dessa empresa.
— Eu sou o controlador.
Marina olhou para mim.
— Pai, o que está acontecendo?
Empurrei a folha até o centro da mesa.
— Onze meses atrás, Renato tomou um empréstimo de quatrocentos e oitenta mil reais.
A empresa dele deixou de pagar há três meses.
— Isso não tem nada a ver com nossa conversa — Renato respondeu rapidamente.
— Tem tudo a ver.
Você acabou de me explicar como pessoas sem dinheiro devem se tornar úteis.
Achei curioso, considerando que deve quase meio milhão a uma empresa minha.
Marina pegou o contrato.
— Renato, você me disse que não havia dívidas grandes.
— É dívida empresarial.
— Você disse que a agência estava saudável.
— E está.
— Então por que não está pagando?
Ele apontou para mim.
— Porque esse homem deve ter comprado minha dívida para me controlar.
— Eu era o credor desde o primeiro dia — respondi.
Ele ficou em silêncio.
Marina continuou lendo.
— Quatrocentos e oitenta mil…
— O dinheiro foi usado para expandir a empresa — Renato afirmou.
— Parte dele — eu disse.
Os olhos dele vieram para mim.
— O que quer dizer?
Tirei uma segunda folha do envelope.
Era um resumo contábil produzido durante a análise de inadimplência.
— Trinta e dois mil em despesas pessoais.
Duas viagens.
Um relógio.
Restaurantes.
Transferências para uma conta de pessoa física.
Marina ficou pálida.
— Qual conta?
Renato se levantou.
— Essa conversa acabou.
— Sente-se — Marina disse.
Foi a primeira vez naquela noite em que a voz dela teve firmeza.
Renato olhou para a esposa, surpreso.
— Marina…
— Eu perguntei qual conta.
Ele demorou demais para responder.
Eu já sabia o nome da titular porque Helena havia solicitado a documentação vinculada às transferências.
Letícia Ramos.
Trinta e quatro anos.
Consultora independente.
Também aparecia como locatária de um pequeno apartamento em um prédio de minha propriedade na zona sul.
Eu ainda não sabia qual era a relação entre os dois.
Até receber, dois dias antes, uma cópia de uma declaração registrada em cartório relacionada a uma sociedade comercial paralela.
Coloquei o terceiro documento sobre a mesa.
Renato empalideceu imediatamente.
Marina percebeu.
— Você sabe o que