que eu sempre fazia entre o t e o e.
Na linha reservada à testemunha estava escrito Álvaro Duarte.
Senti um frio no peito que não tinha nada a ver com o ar-condicionado.
— Quando isso foi enviado?
A funcionária abriu o histórico.
— Três noites atrás.
Duas e quatorze da manhã.
Naquela noite, eu tinha acordado perto das três procurando meu telefone.
Renato disse que ele estava carregando do lado dele porque a tomada do meu criado-mudo estava frouxa.
Eu tinha acreditado.
Então a funcionária percebeu outro arquivo anexado ao mesmo envio.
— Existe um segundo documento.
Quer que eu abra?
Do corredor, ouvi Renato levantar a voz para o segurança.
— Não deixa ela ver.
Aquela frase foi mais reveladora que qualquer confissão.
A enfermeira fechou a porta e chamou a supervisora administrativa.
Quando o segundo documento abriu, vi o nome de uma clínica de saúde comportamental no cabeçalho.
A carta afirmava que eu tinha histórico de episódios de paranoia e confusão sob estresse intenso e que, durante crises, poderia interpretar familiares próximos como ameaças.
No rodapé aparecia o nome de uma médica.
— Nunca fui a essa clínica.
A supervisora, Marta, não fez suposições.
Ela procurou o telefone oficial da instituição e ligou usando uma linha interna.
Depois de alguns minutos, voltou para a sala com o rosto sério.
A médica cujo nome aparecia no documento realmente existia, mas tinha deixado aquela clínica havia quase dois anos.
A clínica também não encontrou qualquer cadastro em meu nome.
Marta pediu que ninguém alterasse ou excluísse os arquivos e encaminhou o caso ao setor jurídico e de segurança da informação do hospital.
Foi quando uma contração muito mais forte interrompeu tudo.
O monitor fetal oscilou.
A enfermeira olhou para a tela.
Depois chamou o obstetra.
Em menos de dois minutos, a sala que estava concentrada na falsificação passou a se concentrar em Luna.
Os batimentos dela diminuíam durante algumas contrações.
Meu colo estava mudando mais rápido do que deveria.
O médico explicou que tentariam desacelerar o trabalho de parto, administrar medicação adequada à situação e acompanhar a bebê de perto.
A equipe neonatal foi avisada porque havia possibilidade real de nascimento prematuro.
Eu queria perguntar cem coisas.
Tudo que consegui dizer foi:
— Ela vai ficar bem?
O médico segurou meu olhar.
— Estamos fazendo tudo para dar a vocês duas a melhor chance possível.
Agora preciso que você continue nos dizendo exatamente o que sente.
Era estranho perceber como uma frase tão básica podia soar revolucionária.
Diga o que você sente.
Em casa, eu tinha aprendido a fazer o oposto.
Júlia chegou vinte minutos depois usando ainda a calça social do escritório e um casaco jogado sobre os ombros.
Assim que entrou, parou ao me ver cercada de monitores.
— Meu Deus, Cami.
— Não chora — murmurei.
— Se você chorar, eu choro.
Ela riu sem humor e segurou minha mão.
— Então ninguém chora.
Contei rapidamente sobre os documentos.
O rosto dela endureceu.
— Eu sabia que alguma coisa estava errada.
— O quê?
Ela hesitou.
Duas semanas antes, Renato tinha ligado para ela dizendo que minha gravidez estava me deixando emocionalmente instável.
Pediu que Júlia evitasse me telefonar por alguns dias porque o médico teria recomendado menos estresse.
Meu médico nunca tinha dito isso.
Renato