de arquitetura, meu pai disse que ela precisaria de um computador melhor.
Eu paguei metade.
Quando perdeu um estágio, ajudei no aluguel durante quatro meses.
Quando quis fazer um curso intensivo de inglês, minha mãe perguntou se eu poderia contribuir.
Contribuí.
Sempre havia uma razão plausível.
Sempre havia uma urgência.
E sempre havia a mesma frase:
— Você consegue recuperar esse dinheiro depois.
Por isso mantive a compra do apartamento em segredo.
Eu não queria opiniões antes de assinar.
O imóvel não era luxuoso.
Tinha sessenta e poucos metros quadrados, dois quartos pequenos, um banheiro, cozinha antiga e uma varanda tão estreita que mal cabiam duas cadeiras.
Mas havia uma janela enorme na sala.
Quando visitei o imóvel pela primeira vez, às cinco da tarde, a luz atravessou o ambiente e bateu na parede do corredor.
Eu me imaginei chegando cansada do trabalho, trancando a porta e sabendo que aquele espaço não dependia do humor de ninguém.
Fiz a proposta no dia seguinte.
Assinei o financiamento três semanas depois.
Quando recebi as chaves, passei horas sozinha ali.
Não havia sofá.
Nem mesa.
Nem cortinas.
Sentei no chão com uma pizza barata e uma garrafa de água.
Foi uma das melhores noites da minha vida.
Durante três dias, não contei à família.
No quarto, comecei a me sentir culpada.
Esse sentimento era antigo demais para eu perceber imediatamente o absurdo dele.
Minha mãe ligou perguntando por que eu estava estranha.
Respirei fundo e contei.
Ela gritou de surpresa.
Por alguns segundos, parecia genuinamente feliz.
— Precisamos comemorar domingo — disse.
Eu devia ter desconfiado quando ela perguntou o valor do imóvel antes mesmo de perguntar onde ficava.
No domingo, fui à casa deles levando doces.
Camila abriu a porta.
— Proprietária! — brincou, me abraçando.
Mostrei fotos no celular enquanto minha mãe terminava o jantar.
Meu pai observava da cabeceira da mesa.
Ele não sorriu.
Durante a refeição, fez perguntas cada vez mais específicas.
Quanto dei de entrada?
Quanto faltava pagar?
Qual era o valor de mercado?
Eu respondia sem detalhes até finalmente perguntar:
— Pai, por que você quer saber tanto?
Ele pousou o garfo.
Minha mãe ficou imediatamente interessada demais no próprio prato.
— A Camila recebeu uma oportunidade — disse ele.
Camila levantou os olhos.
— Que oportunidade?
— O mestrado de Barcelona.
Ela hesitou.
Aquela hesitação foi a primeira pista de que alguma coisa não encaixava.
— Pai, eu só fui aceita.
Ainda estou avaliando.
— Não existe nada para avaliar — respondeu ele.
— Você vai.
Então me encarou.
— Marina vai ajudar.
Eu já conhecia aquela frase.
— Quanto?
Ele não respondeu imediatamente.
— Você vai vender o apartamento.
O som dos talheres pareceu desaparecer.
Pensei que tinha ouvido errado.
— O quê?
— Você ouviu.
— Não, pai.
— Não o quê?
— Eu não vou vender minha casa para pagar o mestrado da Camila.
Camila abriu a boca.
— Marina, eu nunca pedi…
— Fique fora disso — meu pai cortou.
Ela se calou.
Eu me virei para minha mãe.
— Você sabia disso?
Teresa apertou o guardanapo.
— Nós conversamos sobre possibilidades.
— Esta não é uma possibilidade.
— Você pode comprar outro apartamento depois — Roberto disse.
— Você tem uma boa profissão.
Aquilo doeu mais do que deveria.
— E