Algumas páginas tinham anotações à mão.
Reconheci a letra do meu pai.
— Por que você guardou isso?
— Porque comecei a ter medo.
Passei os olhos pelos números.
Dívidas da empresa.
Garantias pessoais.
Parcelas vencidas.
Então encontrei transferências.
Valores que eu havia enviado à minha mãe ao longo dos anos apareciam anotados ao lado de expressões como cobertura temporária, fornecedor e juros.
Levantei os olhos.
— O dinheiro que eu mandava para ajudar a Camila…
Minha mãe apertou as mãos.
— Nem sempre ia para ela.
Senti um vazio no peito.
— Quanto?
— Não sei exatamente.
— Você sabia?
Ela demorou demais para responder.
— Algumas vezes.
Afastei a cadeira.
— Então quando vocês diziam que era para o aluguel dela…
— Parte era.
— E o resto?
Minha mãe começou a chorar mais forte.
— Seu pai dizia que devolveria.
Que era temporário.
Que, se a empresa quebrasse, todos nós sofreríamos.
— Então vocês usaram minha irmã como desculpa porque sabiam que eu pagaria.
— Eu não queria que fosse assim.
— Mas deixou acontecer.
Ela não respondeu.
Eu me levantei e fui até a janela.
Lá embaixo, os faróis passavam pela avenida molhada.
Minha mãe falou atrás de mim.
— Existe mais uma coisa.
Fechei os olhos.
— Claro que existe.
— A casa onde eu e seu pai moramos foi dada como garantia de uma dívida empresarial.
Virei.
— Sem você saber?
— Eu assinei.
— Então você sabia.
— Ele disse que era por seis meses.
— E agora?
— Agora o banco pode tomar a casa.
Finalmente entendi os duzentos e oitenta mil.
O mestrado de Camila era apenas uma história que meu pai considerava mais fácil de vender do que a verdade.
Ele não queria salvar o futuro da filha mais nova.
Queria tapar um buraco financeiro que crescera durante anos.
E escolhera meu apartamento como a próxima coisa sacrificável.
No dia seguinte, registrei o boletim de ocorrência.
Não fiz isso com prazer.
Também não fiz para punir meu pai.
Fiz porque meu nome e minha casa estavam em risco.
O banco abriu uma investigação formal e bloqueou qualquer movimentação relacionada à proposta fraudulenta.
Também procurei uma advogada especializada em direito bancário e fraude documental, que me orientou sobre como proteger meus dados e registrar todas as comunicações.
Meu pai descobriu naquela tarde.
Ligou de três números diferentes.
Não atendi.
Depois mandou uma mensagem:
Você destruiu esta família.
Li duas vezes.
Então tirei uma captura de tela e enviei para minha advogada.
Não respondi.
Camila veio ao meu apartamento no sábado.
Ela trouxe café e um saco de pão de queijo.
Ficamos alguns minutos sentadas no sofá sem saber como começar.
Por fim, ela disse:
— Eu recusei Barcelona.
— Você não precisava fazer isso.
— Não recusei por causa de você.
Pedi adiamento.
Quero reorganizar as coisas e tentar outra bolsa.
Assenti.
Ela olhou para as próprias mãos.
— Eu não percebia quanto você pagava por mim.
— Você não pediu muitas dessas coisas.
— Mas aceitei sem perguntar.
Eu não queria transformá-la em culpada pelo sistema que nossos pais haviam criado.
— Nós duas fomos colocadas em papéis diferentes — falei.
— Eu tinha que resolver.
Você tinha que precisar.
Ela soltou uma risada triste.
— Péssimos papéis.
— Péssimos.