chegou.
Perguntou se você já estava aqui.
Eu estava.
Mas não na minha sala.
Estava na sala de reuniões do conselho com Beatriz, Júlio, Marcelo e uma especialista externa em compliance chamada Lívia Monteiro.
Helena ainda não tinha chegado.
— Seu pai sabe disso? — perguntou Júlio.
— Ainda não — respondeu Beatriz.
Ela olhou para mim.
— Depois que começarmos, ele saberá.
Eu assentia quando ouvi passos no corredor.
Através do vidro, vi Clara virar em direção à minha sala.
Ela carregava um copo de café e usava um conjunto claro que parecia escolhido para uma manhã de vitória.
Parou na porta.
Seu rosto mudou.
Meu pai apareceu atrás dela poucos segundos depois.
Ele olhava o celular e quase esbarrou nela.
Clara apontou para minha mesa vazia.
Ele viu o envelope.
Antes que pudesse entrar na sala, as portas do elevador abriram.
Helena surgiu quase correndo.
Nunca a tinha visto correr.
Ela vinha com o celular apertado na mão e o rosto completamente pálido.
— Augusto — disse.
— Por favor, me diga que ninguém enviou aquele comunicado.
Meu pai franziu a testa.
— Que comunicado?
Helena fechou os olhos por um segundo.
— O aviso sobre o afastamento do Rafael.
Clara virou para ela.
— Eu pedi para comunicação mandar aos clientes estratégicos.
Eles precisavam saber que ele não responderia nesta semana.
Helena ficou imóvel.
— Você disse o motivo?
— Apenas que ele estava afastado durante uma apuração de conduta interna.
O corredor pareceu ficar menor.
Meu pai olhou para Clara.
— Você fez isso sem falar comigo?
— Era necessário controlar a narrativa.
Foi a pior frase que ela poderia ter escolhido.
Helena abriu o celular.
— Um dos clientes respondeu.
Então nos viu através do vidro.
Meu pai acompanhou seu olhar.
Seu rosto mudou quando percebeu quem estava sentado comigo.
Entraram na sala sem dizer mais nada.
Helena fechou a porta.
— Antes que alguém fale — disse ela —, precisamos entender o risco jurídico em que estamos.
Clara soltou uma risada curta.
— Risco jurídico porque Rafael não sabe receber uma advertência?
Lívia empurrou uma cadeira na direção dela.
— Sente-se, por favor.
— Quem é você?
— Lívia Monteiro.
Fui contratada pelo comitê de auditoria.
Meu pai virou bruscamente para Beatriz.
— Quando isso aconteceu?
— Ontem.
— Sem me consultar?
— O estatuto não exige sua autorização quando a investigação envolve possível conflito de interesse da presidência.
Meu pai ficou em silêncio.
Não porque concordava.
Porque sabia que ela estava certa.
Marcelo colocou onze relatórios sobre a mesa.
— Estes são os eventos que encontrei até agora.
Clara olhou para mim.
— Você fez isso.
— Não.
Eu encontrei o primeiro problema.
Marcelo encontrou os outros.
Ela se virou para ele.
— Depois de tudo que meu pai fez por você?
Marcelo empalideceu, mas não recuou.
— Seu pai me contratou para cuidar das finanças da empresa, não da família.
Meu pai não gostou da frase.
Mas também não conseguiu contestá-la.
Abri minha pasta.
— Quero deixar uma coisa registrada antes de continuar.
Todos olharam para mim.
— Durante quase dois anos, eu corrigi várias irregularidades ligadas à área da Clara sem formalizar incidentes.
Achei que estava protegendo a empresa.
Na verdade, eu estava escondendo um padrão.
Meu pai franziu a testa.