despesas.
Ele me encarou.
— O quê?
— Mostre.
— Você está exigindo que eu preste contas dentro da minha própria casa?
Minha avó respondeu:
— Ele está perguntando para onde foi o dinheiro dele.
Renato levantou-se.
— Eu também quero saber.
Meu pai olhou para minha mãe.
Foi um olhar rápido, mas vi culpa nele.
Minha mãe começou a chorar.
— Eu achei que conseguiríamos resolver antes de descobrirem.
Meu estômago apertou.
— Resolver o quê?
Ela olhou para Renato.
Ele recuou.
— Não me coloque nisso.
Meu pai finalmente falou.
Quando Renato se separara, deixara para trás mais do que um casamento destruído.
Havia empréstimos pessoais, parcelas atrasadas e uma dívida feita durante uma tentativa fracassada de abrir um pequeno negócio de entregas.
Parte dela estava no nome dele; outra parte havia sido garantida pelo meu pai meses antes da separação.
— Eu disse para vocês não pagarem — Renato falou.
— E deixar tudo piorar? — meu pai rebateu.
— Com Sofia no meio disso?
Olhei de um para o outro.
— Meu dinheiro estava pagando a dívida dele?
Meu pai não respondeu.
— Pai.
— Parte das despesas da casa foi reorganizada.
— Isso não é resposta.
Minha mãe enxugou o rosto.
— Sim.
A palavra caiu pesada.
Renato ficou imóvel.
— Eu não sabia.
Eu queria acreditar que ele estava mentindo.
Seria mais fácil continuar com raiva dele.
Mas seu rosto tinha perdido a cor.
— Vocês me disseram que estavam usando a aposentadoria do pai — continuou ele.
— Disseram que não queriam envolver o Lucas.
Meu pai levantou a voz.
— Eu fiz o necessário para proteger esta família.
— De quem? — perguntei.
— De saber a verdade?
Ele apontou para mim.
— Você não entende o que é ver um filho prestes a perder tudo.
— Sou seu filho também.
A frase saiu antes que eu pudesse contê-la.
Meu pai baixou a mão.
Ninguém falou por alguns segundos.
Minha avó abriu novamente o envelope.
— Ainda não terminamos.
Ela retirou outra folha dobrada.
Meu pai fechou os olhos.
— Mãe.
— Ontem você me pediu mais dinheiro — disse ela.
— Dessa vez eu fui ao banco antes de responder.
Ela havia desconfiado porque meu pai pedira uma quantia muito maior.
Disse que precisava impedir uma cobrança relacionada à casa.
Minha avó, viúva havia onze anos e cuidadosa com cada centavo da aposentadoria, decidiu verificar antes de transferir.
O que descobriu era pior.
Meses antes, meus pais haviam renegociado uma dívida usando a casa como garantia.
Para conseguir reorganizar o compromisso e proteger parte do imóvel, haviam iniciado uma alteração patrimonial que incluía Renato em documentos ligados à propriedade.
Renato arregalou os olhos.
— Vocês fizeram o quê?
Dessa vez, minha mãe pareceu genuinamente surpresa com a reação dele.
— Seu pai disse que você sabia.
— Eu assinei documentos que ele disse serem sobre a renegociação da dívida do negócio.
Todos olharam para meu pai.
Ele se levantou e caminhou até a janela.
— Eu estava tentando evitar que a casa fosse perdida.
— Colocando Renato no meio sem explicar tudo? — minha avó perguntou.
— Eu ia resolver.
— Essa frase está ficando cara demais — respondi.
Meu pai virou-se.
— E o que você quer que eu diga?