R$ 650 mensais.
Nunca fiz disso um assunto familiar.
Não anunciava quanto gastava.
Não colocava os recibos na frente dos meus pais.
Não esperava elogios.
Também limpava meu quarto, lavava minhas roupas e ajudava nas tarefas domésticas.
Meu pai às vezes me agradecia pelas compras.
Minha mãe preferia observar o que eu ainda não havia feito.
— Você esqueceu uma caneca na pia.
— Precisamos economizar energia, Lívia.
— Seu banho foi demorado hoje.
Eu obedecia porque acreditava que precisava respeitar as regras da casa onde morava.
Meu irmão mais velho, Caio, nunca precisou obedecer às mesmas regras.
Ele tinha 32 anos, um sorriso encantador e uma coleção impressionante de planos que raramente sobreviviam ao primeiro obstáculo.
Aos 25, decidiu abrir uma loja virtual.
Aos 27, entrou numa sociedade para vender acessórios automotivos.
Aos 30, financiou um pequeno negócio de entregas rápidas.
Cada empreendimento começava com uma apresentação entusiasmada durante o almoço de domingo.
— Dessa vez vai dar certo — minha mãe sempre dizia.
Quando não dava, a explicação era invariavelmente a mesma: o mercado estava difícil, os sócios eram desonestos, os clientes não reconheciam seu talento.
Nunca era responsabilidade de Caio.
Dois anos antes, durante um almoço de aniversário, meu pai o abraçou diante de todos.
— Tenho orgulho do homem responsável que você está se tornando, filho.
Eu me lembrava especialmente daquela frase porque havia acabado de pagar a conta de energia da casa, a pedido da minha mãe, além do aluguel habitual.
Na época, imaginei que papai estivesse elogiando algum esforço profissional do meu irmão que eu desconhecia.
Hoje sei que havia outra razão.
Mas ainda faltavam alguns meses para eu descobrir a verdade.
Tudo começou numa quinta-feira chuvosa de março.
Cheguei do trabalho e encontrei seis malas grandes no corredor.
A sala estava ocupada por caixas de brinquedos, cobertores e uma televisão que eu nunca tinha visto.
Caio estava sentado no sofá, mexendo no celular.
— Surpresa, maninha! — anunciou.
— Vamos passar um tempo aqui.
Renata apareceu carregando Pedro, de quatro anos, que dormia em seus braços.
Nina, de sete, correu para me abraçar.
Eu gostava dos meus sobrinhos.
Eles não tinham culpa das dificuldades dos adultos.
Mesmo assim, fiquei confusa.
— Vocês vão ficar quanto tempo?
— Até a situação melhorar — respondeu Caio.
Minha mãe surgiu na porta da cozinha.
— Seu irmão perdeu o contrato com o principal cliente.
Não vamos abandonar uma família com crianças.
— Claro que não — respondi.
— Só queria entender como vamos nos organizar.
Ela me lançou um olhar de advertência.
— Nós nos organizamos depois.
Não houve organização alguma.
Na primeira semana, Caio instalou seu videogame na televisão da sala e passou a jogar até tarde da noite.
Os colchões ocuparam o espaço onde meu pai costumava ler.
A mesa de jantar virou uma superfície permanente para brinquedos, material escolar e correspondências.
Renata fazia o que podia, mas também estava sobrecarregada.
Ela havia perdido horas de trabalho numa loja e procurava outra oportunidade.
Nina e Pedro precisavam de rotina, de espaço e de atenção.
Eu entendia tudo isso.
O que não entendia era por que o sacrifício parecia ter sido distribuído para uma pessoa só.
Caio acordava perto do meio-dia.
Reclamava quando eu ligava a cafeteira às seis e meia da manhã.
Usava meu