shampoo sem perguntar e deixava louça suja sobre a bancada.
Quando pedi que ajudasse a levar o lixo, respondeu:
— Relaxa, Lívia.
Você leva tudo muito a sério.
Minha mãe ouviu e concordou.
— Seu irmão está estressado.
Não precisa cobrar tanto.
Naquela noite, descobri que ele havia comido o almoço que eu preparara para levar ao trabalho.
Era um detalhe pequeno.
Mas tive de comprar comida na rua porque alguém decidira que tudo o que estava naquela casa pertencia a todos, exceto as responsabilidades.
Duas semanas depois, chegou o anúncio dos R$ 1.700.
A diferença representava R$ 750 a mais por mês, sem contar as compras que eu continuaria pagando.
Meu desembolso mensal passaria facilmente dos dois mil reais.
Quando perguntei se Caio ajudaria com alguma coisa, minha mãe respondeu que ele precisava guardar o pouco dinheiro que tinha para recomeçar.
— E eu? — perguntei.
— Não preciso guardar dinheiro para construir minha vida?
— Você não tem as mesmas responsabilidades.
— Tenho contas, mãe.
Tenho planos.
Ela cruzou os braços.
— Seus planos podem esperar.
As crianças não.
Caio estava na sala e ouviu tudo.
Não apareceu para dividir a responsabilidade.
Não ofereceu metade do valor.
Não sugeriu sequer pagar suas próprias compras.
Mais tarde, quando o encontrei sozinho, tentei conversar.
— Caio, você realmente acha justo eu pagar esse aumento?
Ele soltou uma risada desconfortável.
— A mãe sempre exagera.
Mas você sabe que estou numa fase ruim.
— Não estou pedindo que você fique rico amanhã.
Estou perguntando se pretende contribuir.
— Quando eu conseguir algo, ajudo.
— Você disse isso da última vez.
Seu rosto mudou.
— Não precisa jogar meus fracassos na minha cara.
Ele voltou para o videogame.
Fiquei alguns segundos parada diante da porta.
Naquela noite, pela primeira vez em quatro anos, abri minha planilha financeira para calcular quanto custaria sair de casa.
Eu tinha uma reserva de emergência.
Não era enorme, mas era suficiente para pagar caução, transporte e os primeiros meses de aluguel.
Também tinha uma amiga, Joana, que havia comentado recentemente sobre a necessidade de dividir seu apartamento.
Liguei para ela antes que minha coragem desaparecesse.
— A proposta daquele quarto ainda está de pé?
— Está.
Aconteceu alguma coisa?
Contei apenas o essencial.
Joana ficou alguns segundos em silêncio.
— Lívia, vem conhecer o apartamento amanhã.
Você não precisa bancar cinco pessoas para provar que ama seus pais.
Na sexta-feira, fui até lá depois do expediente.
O apartamento ficava no segundo andar de um prédio antigo, numa rua tranquila.
O quarto disponível tinha uma janela grande, um armário embutido e espaço para minha escrivaninha.
O aluguel e as despesas divididas ficariam em aproximadamente R$ 1.350 para mim.
Era menos do que minha mãe exigia apenas para continuar ocupando meu antigo quarto.
Olhei pela janela.
Havia uma árvore de flores amarelas no passeio e um cachorro dormindo na varanda do prédio vizinho.
Pela primeira vez em semanas, consegui respirar sem sentir que alguém estava prestes a me cobrar alguma coisa.
— Quero ficar — respondi.
Na segunda-feira, acertamos os detalhes por escrito.
Fiz a transferência da caução combinada, recebi a chave e comecei a organizar a mudança.
Não contei aos meus pais.
Não porque quisesse assustá-los, mas porque conhecia o que aconteceria caso anunciasse minha decisão antes de