Nós.
Bianca começou a reparar na palavra.
Quando uma conta era paga, era dinheiro deles.
Quando havia trabalho, risco, impostos ou problemas com clientes, a empresa era dela.
Ainda assim, ela demorou a reagir.
Até a sexta-feira em que Gloria entrou na cozinha segurando o telefone e anunciou que precisava de mais US$ 4.700.
Bianca estava cortando limões para o jantar.
— Precisa para quê?
— Minha viagem.
Algumas roupas novas, cabeleireiro, sapatos.
Quero comprar tudo amanhã.
Bianca pousou a faca.
— Você recebeu os US$ 5.800 quatro dias atrás.
Gloria deu de ombros.
— Isso já está comprometido.
— Com o quê?
— Minhas despesas.
— Gloria, estou transferindo quase seis mil dólares por mês.
— E você ganha várias vezes isso.
Ethan estava no sofá da sala, a poucos metros dali, olhando para o celular.
Bianca esperou que ele dissesse alguma coisa.
Nada.
— Ethan?
Ele suspirou antes de levantar os olhos.
— Paga, Bianca.
É uma vez só.
— Você disse isso da última vez.
— Por que transformar tudo em conflito?
A pergunta provocou algo que Bianca vinha adiando havia meses.
Ela olhou ao redor da casa.
A hipoteca saía da conta dela.
O carro estacionado na garagem estava no nome dos dois, mas as parcelas eram pagas por ela.
As férias do último verão tinham sido pagas por ela.
O seguro de saúde de Ethan, as compras da casa, os impostos, a prestação do veículo de Gloria e até a assinatura de streaming da sogra passavam, de algum modo, pelo dinheiro de Bianca.
E ainda assim era ela quem estava criando conflito.
— Não — disse.
Gloria franziu a testa.
— Como é?
— Não vou transferir mais US$ 4.700.
E a partir do próximo mês, os depósitos de US$ 5.800 terminam.
Ethan se levantou.
— Bianca, não toma uma decisão dessas no calor do momento.
Ela se virou para ele.
— Eu venho pensando nisso há semanas.
Isso não era inteiramente verdade.
Ela vinha pensando havia meses.
Só ainda não tinha tido coragem de transformar o pensamento numa frase.
Gloria aproximou-se da bancada.
— Então é isso? Agora que meu filho está desempregado, você resolveu mostrar quem manda?
— Isso não tem nada a ver com mandar.
— Claro que tem.
Você gosta de lembrar que é seu dinheiro.
— Porque é dinheiro que eu trabalho para ganhar.
O rosto de Gloria ficou rígido.
— Ethan abriu mão de muita coisa por você.
Bianca olhou para o marido.
— Do quê?
Ethan passou a mão pela nuca.
— Não vamos fazer isso agora.
— Não.
Eu quero saber.
Do que você abriu mão?
Ele não respondeu.
Gloria respondeu por ele.
— Da dignidade de ser homem nesta casa.
A frase pairou entre os três.
Bianca sentiu uma tristeza estranha, quase calma.
Finalmente havia uma explicação.
Não para tudo, mas para o ressentimento que crescera ao redor dela sem jamais ser nomeado.
— Então o problema não é precisar de ajuda — Bianca disse.
— O problema é que vocês me odeiam por eu conseguir pagar por ela.
Ethan ficou vermelho.
— Ninguém te odeia.
— Então prove.
Diga à sua mãe que acabou.
Ele permaneceu parado.
Gloria soltou uma risada curta.
— Você realmente acha que ele vai escolher você contra a própria mãe?