e percebeu que algumas contas simplesmente não podiam existir.
— E denunciou?
— Tentou.
Daniel apontou para uma fotografia de minha mãe.
— Elisa foi enviada para descobrir quem estava vazando documentos.
Minha garganta apertou.
— Ela se aproximou dele por causa disso.
— Sim.
— Casou com ele por causa disso?
Daniel demorou um segundo.
— No início, provavelmente fazia parte da missão.
A resposta foi como ouvir minha infância sendo desmontada peça por peça.
Virei mais páginas até encontrar uma foto minha aos cinco anos, sentada nos ombros de meu pai em uma praia.
Reconheci o maiô vermelho.
Minha mãe tinha aquela fotografia emoldurada na cozinha.
No verso, havia uma frase escrita por meu pai.
Foi por ela que Elisa escolheu ficar.
— O que significa isso?
Daniel encostou-se ao armário.
— Sua mãe mudou de lado.
Olhei para ele.
— Explique.
— Quando você nasceu, ela começou a fornecer informações ao seu pai.
Ajudou a retirar vocês de uma operação de vigilância.
Forjou registros.
Queimou contatos.
Foi assim que vocês passaram a usar o sobrenome Duarte.
— Então ela nos salvou.
— Talvez.
— Você acabou de dizer que sim.
— Eu disse que ela ajudou vocês a desaparecer.
Isso não significa que contou tudo ao seu pai.
A caixa de madeira chamou minha atenção.
Dentro havia uma aliança masculina, uma fita cassete e um pequeno pendrive.
Reconheci a aliança.
Era a que meu pai sempre usava.
Só que no funeral, eu tinha visto outra em sua mão.
Meu estômago virou.
A imagem do corpo voltou com clareza.
A pele pálida.
O cabelo penteado para trás.
O rosto.
O anel.
Eu tinha visto o que esperava ver.
Não tinha examinado o corpo como médica.
Tinha olhado como filha.
O celular antigo dentro do armário acendeu.
Daniel empalideceu.
— Isso não deveria funcionar.
A tela mostrou uma chamada sem identificação.
Atendi.
— Alô?
Silêncio.
Depois, uma voz conhecida disse meu nome.
— Helena?
Minhas pernas enfraqueceram.
— Pai?
— Escute.
Não temos muito tempo.
Segurei a borda do armário.
— Você está vivo.
— Estou.
Uma mistura violenta de alívio e raiva tomou conta de mim.
— Nós enterramos você hoje.
— Eu sei.
— Mamãe chorou diante daquele caixão.
— Ela sabia que estava vazio.
Olhei para Daniel.
— Ela sabia?
— Sim.
— Então por que disse que você estava fugindo dela?
Do outro lado, meu pai ficou em silêncio por um instante.
— Porque ela precisava que Daniel acreditasse nisso.
Ergui lentamente os olhos.
Daniel já não parecia nervoso.
Estava sorrindo.
Ouvi um clique atrás de nós.
A porta corta-fogo do corredor tinha sido trancada.
Daniel enfiou a mão no bolso do casaco.
— Desligue o telefone, Helena.
Não obedeci.
A voz de meu pai veio rápida.
— A caixa.
Fundo falso.
Daniel avançou.
Peguei a caixa de madeira e a joguei no chão.
Ela se abriu.
A base se soltou, revelando um pequeno dispositivo preto com um botão vermelho.
Daniel parou.
— Não toque nisso.
— O que é?
— Helena — meu pai disse ao telefone.
— Aperte.
Daniel deu mais um passo.
Apertei.
As luzes do corredor apagaram.
Um alarme disparou em algum ponto do terminal.
Portas automáticas se destravaram simultaneamente.
Daniel xingou e avançou no escuro.
Corri.
Atravessei o corredor guiada