instável — Elisa respondeu, surpreendendo a todos.
— Estou com medo de você.
O rosto dele se contraiu.
— Você percebe o que está fazendo comigo na frente dessas pessoas?
A pergunta revelou tudo.
Não era a segurança da filha que preocupava Renato.
Era a própria imagem.
Camila explicou que nenhum vínculo familiar ou cargo administrativo substituía a vontade de uma paciente adulta capaz de tomar suas decisões.
Renato exigiu acesso imediato ao prontuário.
Quando Lídia abriu o histórico, apareceu outra irregularidade.
Na madrugada anterior, uma anotação havia sido acrescentada ao sistema descrevendo uma suposta avaliação psiquiátrica de Elisa, com recomendações sobre sua capacidade de compreender decisões médicas complexas.
Elisa nunca passara por aquela consulta.
E a médica identificada no documento não constava na escala de atendimento daquele dia.
Camila solicitou a preservação do registro eletrônico e dos respectivos dados de acesso.
Renato tentou interrompê-la.
— Não transforme uma questão familiar em um escândalo institucional.
Foi quando compreendi a dimensão do problema.
Meu genro não estava apenas tentando intimidar Elisa.
Ele parecia preparar documentos que poderiam ser usados para desacreditá-la quando ela denunciasse a violência.
Não tínhamos ainda prova suficiente de quem produzira cada registro.
Mas tínhamos motivos urgentes para impedir que ele continuasse interferindo no atendimento dela.
Tânia me havia orientado a evitar confrontos desnecessários.
Mesmo assim, quando Renato aproximou-se da maca, coloquei-me ao lado de Elisa.
— Ela não quer conversar com você — falei.
— Saia da minha frente, Irene.
— Você vai respeitar a decisão dela.
Ele ergueu a voz.
— Este hospital funciona sob minha responsabilidade!
— E sua responsabilidade termina onde começa o direito dela de dizer não.
O segurança hesitou.
Era um homem chamado Paulo, funcionário antigo, que aparentemente nunca imaginara participar de uma situação semelhante.
Camila pediu que ele mantivesse o corredor livre para a equipe de transporte.
Renato ordenou o contrário.
— Ninguém retira minha esposa daqui sem minha autorização.
A sala ficou silenciosa.
Então Lídia disse algo que mudou a expressão de todos.
— Doutor, alguém está alterando os registros antigos agora.
Ela acabara de receber um alerta relacionado ao caso de Joana Nogueira.
Um usuário com privilégios administrativos tentara excluir informações ligadas à revisão daquele atendimento.
Renato ainda estava diante de nós.
Mauro, no entanto, começou a se afastar discretamente.
Foi apenas um movimento de dois passos.
Mas Lídia percebeu.
— Doutor Mauro, o senhor pode permanecer aqui? — perguntou.
O anestesista parou.
— Tenho uma cirurgia para preparar.
— A paciente não autorizou essa cirurgia — respondeu Camila.
Mauro não contestou.
Apenas lançou um olhar rápido para Renato.
Era o olhar de alguém esperando instruções.
Naquele momento, meu telefone tocou.
Tânia havia chegado à recepção acompanhada de uma assistente especializada no atendimento a vítimas de violência.
Ela já havia orientado o registro de uma solicitação de ajuda às autoridades policiais e tinha avisado a presidente do conselho administrativo, Raquel Arantes, sobre a possibilidade de interferência indevida nos registros médicos.
Raquel não era amiga de Renato.
Era a representante dos investidores responsáveis pela governança do Hospital do Farol.
Durante meses, recebera alertas sobre inconsistências nas informações de segurança encaminhadas pela direção.
Faltavam documentos concretos para determinar o que estava acontecendo.
Agora existiam registros que precisavam ser preservados com urgência.
Renato tentou tomar meu telefone quando percebeu que eu falava