— Escondam a torta da Marina.
Daqui a pouco ela come tudo e ainda diz que foi uma pesquisa de mercado.
Vinícius disse aquilo com um sorriso largo, segurando uma taça de vinho, enquanto doze pessoas estavam sentadas ao redor da mesa de aniversário da minha sogra.
Era domingo, pouco depois das três da tarde.
O calor de Belo Horizonte atravessava as janelas abertas, e o ventilador de teto espalhava o cheiro de carne assada, alho e café recém-passado.
Eu estava carregando uma torta de limão que preparara naquela manhã.
Durante alguns segundos, continuei imóvel, com a travessa apoiada nas duas mãos.
Minha cunhada, Beatriz, parou de cortar o pão.
Minha sogra, Célia, desviou os olhos.
Duas pessoas soltaram risadas nervosas.
Mas eu não estava olhando para nenhuma delas.
Olhava para Rafael, meu marido havia nove anos.
Ele estava sentado à direita de Vinícius.
Baixou a cabeça, apertou os lábios e começou a dobrar o guardanapo de tecido como se aquilo exigisse toda a sua concentração.
— Rafael — Beatriz chamou.
— Você não vai dizer nada?
Ele suspirou.
— Gente, o Vinícius é assim.
Não vamos transformar uma brincadeira em discussão.
Aquela resposta me atingiu de uma forma que o comentário sobre meu corpo não conseguiu.
Porque Vinícius sempre fora cruel.
Eu sabia disso.
Mas Rafael era a pessoa que tinha prometido ficar ao meu lado.
Coloquei a sobremesa sobre a mesa e respondi, com a voz firme:
— Para ser brincadeira, alguém além de você precisa achar graça, Vinícius.
Ele abriu os braços.
— Nossa, Marina.
Agora não podemos falar nada perto de você?
— Pode falar o que quiser.
Só não pode exigir que eu aceite tudo sorrindo.
O almoço continuou, mas a conversa perdeu a naturalidade.
E, enquanto observava Rafael servindo mais vinho ao amigo, senti que alguma coisa antiga dentro de mim começava a mudar.
Meu nome é Marina Costa.
Tenho 39 anos e sou proprietária da Riacho & Grão, uma rede de cinco cafeterias com uma cozinha central de produção em Belo Horizonte.
Doze anos antes, eu tinha começado com um forno emprestado e uma batedeira que desligava quando esquentava demais.
Vendia bolos por encomenda, acordava às quatro da manhã e fazia entregas usando o carro antigo do meu pai.
Minha primeira funcionária foi Dona Neusa, uma mulher que morava na rua de trás e sabia fazer pão de queijo como ninguém.
Hoje, a empresa emprega 86 pessoas.
Temos uma equipe de produção, lojas em diferentes bairros, contratos de fornecimento e um pequeno escritório administrativo.
Nunca escondi que meu corpo mudou durante aqueles anos.
Trabalhei demais, dormi de menos, enfrentei crises financeiras, perdi meu pai e reconstruí uma loja depois de uma enchente que destruiu equipamentos e mercadorias.
Ganhei peso.
Também ganhei experiência, estabilidade e uma vida construída com o trabalho das minhas mãos.
Para Vinícius, porém, nada disso importava.
Ele me conheceu quando Rafael e eu começamos a namorar.
Desde então, fazia comentários sobre minhas roupas, sobre o que eu colocava no prato e até sobre como eu aparecia nas fotografias.
Uma vez, durante um churrasco, perguntou se a cadeira onde eu estava sentada tinha seguro.
Em outra ocasião, disse que Rafael merecia uma medalha por ter escolhido uma esposa que não cabia nos padrões de beleza dele.
Sempre havia alguém dizendo que