azuis, não discuta.
Ligue para Helena.
Helena Prado era sua advogada pessoal.
— Por que eles viriam atrás de cadernos?
Ele me olhou por alguns segundos antes de responder.
— Porque eles ainda não sabem quanto eu descobri.
No apartamento, ouvi a voz de Celina vindo do escritório.
— Procurem também nas caixas da estante.
Ele guardava cópias em lugares óbvios porque achava que ninguém prestava atenção.
Entrei na sala.
Renato apareceu primeiro, carregando um quadro nosso.
— Sofia.
Achei que você fosse ficar na recepção.
— Depois do enterro do meu marido?
Ele fingiu não perceber a pergunta.
Mirela surgiu com uma pasta azul presa ao peito.
— Estamos organizando as coisas da família.
— Na minha casa?
Celina saiu por último.
Vestia pérolas pretas e segurava uma pequena chave.
— Não complique — disse.
— Há documentos da empresa aqui.
Isso não diz respeito a você.
Olhei ao redor.
Havia outros parentes também: um tio, uma prima, uma tia de Celina.
Cada um carregava alguma coisa.
— Tudo para o chão.
Agora.
Renato riu.
— Você está em choque.
— E vocês estão roubando uma viúva no dia do funeral.
O sorriso desapareceu.
Celina inclinou a cabeça.
— Lucas era Ferraz antes de casar com você.
— E eu era esposa dele quando ele morreu.
— Cinco anos de casamento não substituem quarenta anos de família.
Eu quase respondi, mas a campainha tocou.
Quando abri, encontrei a dra.
Helena Prado.
Tinha o cabelo preso, um guarda-chuva fechado numa mão e uma maleta rígida na outra.
Ela entrou, observou a sala e levou apenas alguns segundos para entender.
— Ninguém saia — disse.
Renato soltou uma risada sem humor.
— Você não manda aqui.
Helena pousou a maleta na mesa.
— Tecnicamente, quem manda aqui é Sofia.
O apartamento está registrado exclusivamente em nome dela desde o mês passado.
Celina ficou imóvel.
— Isso é mentira.
— Não é.
Lucas transferiu o imóvel, os bens pessoais descritos no inventário e os direitos econômicos do truste conjugal para Sofia.
A transferência foi concluída antes do acidente.
Mirela apertou a pasta azul com mais força.
— E a empresa?
Helena olhou para ela.
— Vocês parecem muito preocupados com a empresa para pessoas que acabaram de enterrar um irmão.
Renato deu um passo à frente.
— Responda.
— Quarenta e oito por cento das ações com direito a voto pertenciam a Lucas.
Foram depositadas em um truste.
Sofia é a beneficiária e administradora provisória até que a auditoria termine.
Renato empalideceu.
Foi a primeira rachadura real que vi naquela família.
Helena então tirou o celular do bolso, abriu uma tela e perguntou:
— Antes de entrarmos na parte mais desagradável, alguém quer devolver voluntariamente tudo o que colocou nas malas?
Ninguém respondeu.
— Lucas inventariou diversos objetos e documentos com marcadores eletrônicos passivos.
Cada retirada foi registrada com horário e localização aproximada.
Um primo largou discretamente uma caixa no chão.
Helena olhou para mim.
— Sofia, preciso que responda uma coisa.
Onde está a bússola de bronze que vocês compraram na lua de mel?
Meu olhar foi direto para a estante.
O espaço estava vazio.
A bússola era pequena, antiga, comprada numa loja de antiguidades em Punta del Este.
Lucas a mantinha sobre uma pilha de livros, não porque tivesse valor