que tudo fosse realmente dele.
Precisava apenas que as pessoas acreditassem que era.
Quando a audiência terminou, Bianca se levantou antes dele.
— Você mentiu para mim — disse no corredor.
Renato olhou para os lados.
— Baixe a voz.
— Você disse que ficaria com a casa.
— Ainda não acabou.
— E o carro?
— É uma formalidade empresarial.
Eu teria continuado andando se Laura não tivesse tocado meu braço.
— Camila.
Seu rosto estava sério.
Ela segurava uma pasta cinza que não estivera sobre a mesa durante a audiência.
— O banco respondeu à intimação hoje cedo.
Meu corpo inteiro ficou atento.
— Sobre o empréstimo?
— Sim.
Ela me levou para um canto do corredor e abriu a pasta.
Na primeira página havia uma cópia de uma procuração.
Meu nome aparecia no topo.
Minha assinatura aparecia embaixo.
Era parecida.
Muito parecida.
Mas eu nunca tinha visto aquele documento.
— Olhe a data — Laura disse.
17 de março.
O dia da minha cirurgia.
— E a hora.
10h42.
Minha garganta secou.
Às 10h42 eu estava sob anestesia geral.
Laura colocou meu prontuário ao lado do documento.
Entrada na sala cirúrgica: 9h58.
Início da anestesia: 10h11.
Fim do procedimento: 12h06.
— Isso prova que eu não assinei.
— Prova algo ainda pior — Laura respondeu.
— Alguém sabia que você estaria incapaz de contestar imediatamente.
Voltamos à sala.
Laura explicou ao juiz que documentos recém-recebidos poderiam exigir preservação imediata de registros e análise adicional.
O advogado de Renato pediu alguns minutos para consultar o cliente.
Renato já não parecia irritado.
Parecia assustado.
Quando a audiência foi retomada, Laura apresentou a procuração.
— Minha cliente nega ter assinado este documento.
O horário indicado coincide com um período em que ela estava anestesiada em procedimento cirúrgico.
O juiz comparou as páginas.
— Senhor Vale, seu advogado conhecia este documento?
O advogado de Renato respondeu imediatamente.
— Não, Excelência.
Renato fechou os olhos por um instante.
Laura continuou.
— A autorização foi utilizada numa tentativa de obtenção de crédito de aproximadamente 310 mil dólares, com a propriedade da minha cliente apresentada como garantia.
Bianca olhou para Renato.
— Trezentos e dez mil?
Ele não respondeu.
Então Laura mostrou a linha destinada à testemunha.
— Há ainda uma pessoa declarando ter presenciado a assinatura.
Ela leu o nome.
Bianca Martins.
A reação de Bianca foi instantânea.
— Não.
O juiz ergueu o olhar.
— Senhora Martins, permaneça em silêncio até ser orientada.
— Mas eu não vi Camila assinar nada.
Renato virou-se para ela.
— Bianca, pare.
Ela empalideceu.
— Você me disse que era apenas uma confirmação de que ela sabia do empréstimo.
O advogado de Renato colocou a mão no braço dele.
— Não fale.
O juiz advertiu Bianca de que deveria obter orientação jurídica antes de fazer declarações adicionais.
A sala ficou em silêncio.
Eu observava Renato tentando controlar a respiração.
Finalmente entendi por que ele queria um divórcio rápido.
O problema não era apenas a amante.
Não era apenas a casa.
Ele precisava que eu assinasse um acordo antes que meus advogados investigassem profundamente os registros financeiros.
Se eu aceitasse sua proposta por medo, talvez nunca procurássemos o pedido de crédito.
Talvez a procuração desaparecesse no meio de alguma tentativa frustrada de financiamento.
Mas Laura ainda não