nada tivesse acontecido.
Quando cheguei à residência, quinze minutos depois, encontrei Elisa sentada no chão do quarto.
Retalhos azul-escuros cobriam o tapete.
O tecido havia sido cortado em tiras.
A faixa dourada estava rasgada e o capelo tinha a estrutura de papelão partida.
Sobre a cama havia um bilhete.
Li as primeiras linhas.
Beatriz afirmava que Elisa tinha envergonhado a família ao escolher uma carreira sem prestígio suficiente.
Dizia que não pagaria a universidade e encerrava com a frase que jamais esqueci: Você não é mais minha filha.
É um fracasso.
Dobrei o papel cuidadosamente.
Elisa observava meus movimentos.
— Você acha que ela está certa?
Senti uma dor profunda ao perceber que minha filha não estava perguntando por curiosidade.
Ela realmente precisava ouvir a resposta.
— Não, filha.
Não existe uma única palavra verdadeira nesse bilhete.
— Ela disse que arquitetura é uma escolha inútil.
Que eu deveria estudar administração, trabalhar na empresa dela e parar de desperdiçar oportunidades.
— E o que você quer?
— Quero desenhar lugares onde ninguém se sinta preso.
A resposta saiu tão naturalmente que precisei desviar os olhos por um instante.
Beatriz queria uma sucessora para seus negócios.
Elisa queria uma vida própria.
Essa era a origem do conflito.
Meses antes, minha filha havia recebido uma oferta de bolsa integral de quatro anos da Universidade de Hudson, uma instituição reconhecida por seu programa de arquitetura e planejamento urbano.
Ela conquistara a oportunidade depois de apresentar um portfólio excepcional e participar de entrevistas com professores do departamento.
Eu a ajudara a preparar os documentos, mas todo o trabalho criativo era dela.
Quando contou a novidade à mãe, Beatriz não comemorou.
Perguntou por que Elisa escolhera aquela universidade em vez de seguir o caminho que ela havia preparado.
A partir daquele dia, os comentários cruéis tornaram-se frequentes.
Beatriz dizia que minha filha era ingrata, que não entendia a importância das relações profissionais e que acabaria vivendo de favores.
Elisa tentou conversar diversas vezes.
Na véspera da formatura, porém, informou à mãe que havia aceitado oficialmente a bolsa de arquitetura.
A destruição da beca foi a resposta.
— Talvez seja melhor eu não ir — Elisa murmurou.
— Posso pegar meu diploma depois.
Olhei para o relógio.
Faltava menos de uma hora para o início da cerimônia.
— Vista o conjunto preto que compramos para suas entrevistas.
Eu vou resolver a roupa.
— Como?
— Ainda não sei.
Mas sei que você não vai perder essa noite por causa de uma tesoura.
Fotografei os danos, guardei o bilhete e saí do quarto.
No corredor, antes de descer a escada, voltei para abraçá-la.
— Elisa, quero que decida uma coisa.
Você ainda deseja fazer seu discurso?
Ela ergueu a cabeça.
— Mais do que qualquer outra coisa.
— Então é isso que vamos proteger.
No caminho até o Centro Cultural Aurora, telefonei para Celina Braga, diretora do Colégio Vale Norte.
Expliquei a situação e perguntei se existia uma beca reserva.
Ela prometeu verificar e pediu que eu passasse primeiro pela secretaria.
Quando cheguei, encontrei Celina sentada diante de uma pasta aberta.
Sua expressão me deixou imediatamente alerta.
— André, a beca nós conseguimos resolver.
Mas existe outro problema.
Ela retirou um documento do arquivo.
Era um pedido formal de desistência da participação de Elisa na formatura.
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