formulário também solicitava o cancelamento de seu discurso como primeira colocada da turma.
O campo destinado à assinatura da estudante estava preenchido.
Reconheci a letra antes mesmo de terminar a leitura.
Era de Beatriz.
— Minha filha nunca assinou isso.
Celina assentiu lentamente.
— Recebemos o documento três dias atrás, por meio de uma mensagem enviada pela mãe dela.
A justificativa era que Elisa estava emocionalmente incapacitada para falar em público.
— E vocês aceitaram?
— Não.
Eu conheço Elisa há quatro anos.
Achei estranho que uma estudante tão dedicada desistisse dessa forma e pedi uma confirmação pessoal.
Nunca recebi.
Ela fechou a pasta.
— Mantivemos o nome dela no programa.
Fiquei em silêncio, tentando assimilar o que acabara de descobrir.
Beatriz não queria apenas impedir nossa filha de aparecer na cerimônia.
Planejara retirar dela o reconhecimento que havia conquistado, utilizando um documento que simulava sua vontade.
— Quero guardar uma cópia desse formulário — pedi.
— Vou providenciar.
Também preservaremos o e-mail original para que a escola possa apurar formalmente o ocorrido.
Celina se levantou.
— Mas primeiro precisamos saber se Elisa quer falar.
Fizemos uma chamada de vídeo.
Minha filha apareceu com o cabelo preso e o conjunto preto que havíamos escolhido semanas antes.
Ainda parecia abatida.
— Elisa — Celina começou —, seu discurso continua programado.
Você deseja apresentá-lo?
Minha filha ficou imóvel.
— Mas minha mãe disse que tinha avisado à escola que eu não participaria.
— Ela enviou uma solicitação.
Não recebemos sua confirmação.
— Então meu nome ainda vai ser anunciado?
— Vai.
Você terminou o ano como primeira colocada da turma, e seus professores têm muito orgulho disso.
Elisa levou uma das mãos ao rosto.
Não era simplesmente alívio.
Era a surpresa de descobrir que havia adultos dispostos a acreditar em sua palavra.
— Quero ir — ela respondeu.
— Quero muito.
A diretora sorriu.
— Então venha.
Seu lugar está reservado.
Depois da ligação, Celina me apresentou à funcionária responsável pelo vestuário dos formandos.
Havia algumas becas extras guardadas em um armário.
Uma delas serviria em Elisa, mas precisava de pequenos ajustes.
O capelo correspondente estava com uma costura solta na parte superior.
Uma funcionária poderia improvisar uma solução.
Ainda assim, lembrei-me imediatamente de alguém.
Teresa Valença.
A mãe de Beatriz.
Durante os primeiros anos do meu casamento, Teresa fora uma das pessoas mais importantes na vida de Elisa.
Era costureira, mantinha uma oficina pequena e costumava buscar a neta na escola sempre que eu ou Beatriz estávamos trabalhando.
Elisa adorava passar tardes entre retalhos coloridos, botões e máquinas de costura.
Teresa lhe ensinara a usar uma régua, cortar moldes e transformar pequenos desenhos em objetos reais.
Talvez a paixão de Elisa por projetos tivesse começado ali.
Entretanto, depois do divórcio, Beatriz rompeu com a própria mãe.
Disse que Teresa era uma mulher inconveniente, incapaz de respeitar limites.
Pouco depois, o contato entre avó e neta também desapareceu.
Beatriz afirmava que Teresa não queria mais participar da vida da família.
Eu tinha dúvidas, mas nunca havia investigado seriamente.
Hoje, essa omissão me envergonha.
Encontrei um número antigo de Teresa e liguei.
Ninguém atendeu.
Tentei novamente.
Na terceira chamada, ouvi uma voz baixa.
— Alô?
— Dona Teresa? Aqui é o André.
Houve uma longa pausa.
— André Nogueira?
— Sim.
Desculpe ligar