bancárias ligadas a uma empresa chamada Arco Norte Consultoria.
Oficialmente, ela prestava serviços administrativos para pequenas empresas.
Na prática, os valores entrando e saindo não faziam sentido.
Depósitos fragmentados.
Transferências de pessoas idosas.
Contas encerradas logo depois de movimentações altas.
Estávamos tentando identificar quem alimentava a rede.
Meu telefone vibrou.
Vi o nome de Teresa.
O relógio da varanda parou.
Senti uma mudança física dentro do corpo, como se todo o sangue tivesse descido de uma vez.
Telefonei.
Sem resposta.
Outra vez.
Caixa postal.
Levantei da cadeira.
Meses antes, depois de uma queda, eu havia configurado para ela um dispositivo médico com localização compartilhada.
Abri o aplicativo.
O ponto azul apareceu quase imediatamente.
Rua Francisco Torres, bairro Alto da XV.
Casa dos meus pais.
Aquilo era estranho por um motivo que ninguém no meu trabalho entenderia.
Minha avó não entrava naquela casa havia dez meses.
O relacionamento entre ela e meu pai piorara depois de uma discussão sobre a venda de um terreno que pertencera ao meu avô.
Ninguém nunca explicou direito o que acontecera.
Minha mãe dizia apenas que Teresa estava ficando desconfiada demais.
Minha avó dizia:
— Seu pai gosta de resolver coisas que não pertencem a ele.
Liguei para o inspetor Caio Nascimento, da polícia civil, que já havia participado de operações conosco.
— Preciso de apoio para uma verificação de segurança — falei.
— Idosa de setenta e nove anos, possível coação patrimonial.
É minha avó.
Ele percebeu pela minha voz que eu não estava pedindo um favor comum.
— Endereço?
Passei.
Vinte e oito minutos depois, eu estacionava em frente à casa onde havia crescido.
A chuva havia engrossado.
Duas viaturas pararam logo atrás.
A cortina da sala se moveu.
Quando toquei a campainha, minha mãe abriu a porta apenas o suficiente para colocar o rosto para fora.
— Clara?
Depois viu os policiais.
O sorriso desapareceu.
— O que aconteceu?
— A vó está aqui?
— Está.
Por quê?
— Quero falar com ela.
Minha mãe tentou bloquear a passagem.
— Agora não é uma boa hora.
Foi então que tirei minha credencial do bolso interno da jaqueta.
Ela olhou para o documento.
Depois para mim.
— Que brincadeira é essa?
— Não é brincadeira.
Meu pai surgiu atrás dela.
— O que essa gente está fazendo na minha porta?
Antes que eu respondesse, uma voz ecoou do andar de cima.
— Clara!
Era minha avó.
Meu pai tentou fechar a porta.
Caio segurou-a com a mão.
— Senhor, ninguém vai fechar a porta neste momento.
— Esta casa é minha!
— E estamos verificando a segurança de uma pessoa que está aí dentro.
Passei por meus pais e subi.
Minha mãe veio atrás, apressada.
— Sua avó está nervosa sem motivo.
Nós só estamos tentando ajudá-la com alguns papéis.
O corredor parecia menor do que eu lembrava.
A porta do antigo quarto de Renata estava fechada.
Ouvi batidas.
Três.
Pausa.
Duas.
Pausa.
Três.
Era um código antigo que Teresa e eu usávamos quando eu era criança.
Estou aqui.
Girei a maçaneta.
A porta não estava trancada.
Minha avó estava sentada na cama, usando o mesmo casaco azul que vestira quando a vi dois dias antes.
Abraçava a bolsa contra o peito.
Na escrivaninha, havia documentos, uma caneta, um telefone que não era dela