eu desejava suspender o evento.
Olhei para as mesas preparadas para receber os doadores, para os funcionários e para a equipe do instituto.
— Não.
Ninguém aqui merece perder uma noite importante por causa da minha família.
Naquele momento, uma jovem surgiu entre os convidados.
Era Nádia.
Estava usando o uniforme azul da equipe de apoio e segurava um celular.
Sua expressão me fez esquecer imediatamente a discussão.
— Dona Elisa, desculpe interromper.
Acho que encontramos um problema.
Janaína pegou o aparelho.
— O que houve?
— Os cartões de doação que colocaram nas mesas não são iguais aos que aprovamos ontem.
O instituto havia preparado pequenos cartões com códigos Pix para facilitar as contribuições.
Cada cartão deveria direcionar o dinheiro à conta oficial da entidade, cujo nome apareceria no aplicativo bancário antes da confirmação.
Nádia explicou que uma convidada tentara doar R$ 500 e perguntara por que o banco mostrava um beneficiário diferente.
A jovem verificara o código e depois escaneara outros cartões.
Todos apresentavam o mesmo problema.
O destinatário indicado era Luar Produções e Serviços Ltda.
Eu conhecia aquele nome.
Otávio Seixas, meu cunhado, era sócio da empresa.
Meu coração acelerou, mas minha primeira preocupação não foi com ele nem com Verônica.
Foi com as pessoas que haviam confiado naquela campanha.
— Nádia, você confirmou que o nome aparece antes da transferência? — perguntei.
— Sim.
Não concluí nenhum pagamento.
Só conferi os dados exibidos.
— Fez bem.
Janaína, peça à equipe para recolher discretamente os cartões e interromper o uso desses códigos.
Roberto, precisamos que o financeiro confirme imediatamente os pagamentos recebidos pelo canal oficial.
Roberto já digitava no telefone.
— Vou acionar a tesouraria e a assessoria jurídica.
Minha irmã percebeu nossa conversa e se aproximou.
— O que vocês estão cochichando? O leilão beneficente começa em dez minutos.
Eu a encarei.
— Quem autorizou a impressão dos cartões de doação?
— Minha equipe.
Por quê?
— Qual empresa ficou responsável pelos pagamentos?
Ela demorou um instante.
— A plataforma escolhida por Otávio.
É uma questão administrativa.
Você não entenderia.
— O nome de quem vai receber o dinheiro aparece como Luar Produções, Verônica.
Seu sorriso desapareceu.
— Isso deve ser algum detalhe técnico.
— Então precisamos esclarecer antes que qualquer outra pessoa faça uma transferência.
Ela ergueu o queixo.
— Você está tentando destruir minha reputação porque ficou com raiva do que aconteceu na entrada.
— Estou tentando proteger as doações.
— Você sempre teve inveja de mim, Elisa.
Sempre.
Aquelas palavras vieram tão rapidamente que percebi que ela estava procurando a explicação que lhe fosse mais conveniente.
Antes que eu respondesse, Roberto recebeu uma mensagem.
Seu rosto mudou.
— Foram identificadas vinte e três contribuições feitas por esse canal — disse, mostrando o relatório preliminar que a equipe reunira a partir dos comprovantes enviados pelos doadores e dos registros da plataforma de arrecadação.
— Quanto? — perguntei.
— Noventa e seis mil, quatrocentos e oitenta reais.
Verônica olhou para o palco.
As luzes estavam sendo ajustadas.
O mestre de cerimônias se preparava para anunciar a arrecadação principal.
— Chega — declarou ela.
— Não vou deixar minha irmã transformar um detalhe contábil num escândalo.
Temos patrocinadores esperando.
Ela se afastou antes que Roberto pudesse detê-la.
Foi então que vi Otávio perto da porta lateral,