neto perguntar se tinha feito alguma coisa errada?”
Ele abriu a boca e não respondeu.
“Foi o que pensei.”
Minha mãe endureceu o rosto.
“Se você sair agora, não volte amanhã querendo participar da festa.”
Helena apertou minha mão.
Minha família inteira esperava a mesma coisa: que eu recuasse.
Eu sempre recuava.
Naquela noite, apenas disse:
“Tudo bem.”
Saímos.
A chuva estava mais forte quando coloquei as malas no carro.
Caio estava quase dormindo em pé.
Helena ficou em silêncio até eu dar partida.
Então perguntou:
“A vovó gosta mais dos primos?”
A pergunta doeu porque eu poderia mentir para protegê-la, mas eu sabia que crianças percebem mais do que adultos gostam de admitir.
“Sua avó tomou uma decisão injusta”, falei.
“E o que ela fez não diz quanto vocês valem.”
Helena olhou pela janela.
“Mas a gente vai dormir onde?”
“Eu vou encontrar um lugar.”
A praça central tinha algumas pousadas pequenas.
Duas estavam lotadas.
Uma terceira tinha um quarto disponível porque um casal cancelara a reserva naquela tarde.
O quarto era simples: duas camas, um sofá estreito, cortinas bege e um aquecedor que fazia um barulho irritante.
Meus filhos ficaram felizes como se tivéssemos chegado a um hotel de luxo.
Caio pulou sobre a cama.
“Essa é minha!”
Helena riu.
Foi o primeiro sorriso verdadeiro desde que chegáramos à cidade.
Depois que eles dormiram, sentei perto da janela e abri o celular.
Minha mãe já havia enviado sete mensagens.
Primeiro, disse que eu estava exagerando.
Depois, que eu tinha humilhado meu pai.
Em seguida, que as pessoas perguntariam por mim no almoço.
Por fim, escreveu:
“Pense nas crianças.
Família é família.”
Eu reli aquela frase várias vezes.
Família é família.
Era a desculpa usada para tudo.
Abri o aplicativo do banco.
Três transferências automáticas saíam da minha conta todos os meses.
Uma ajudava no plano de saúde dos meus pais.
Outra cobria uma parcela do carro de minha mãe.
A terceira era uma quantia fixa que ela dizia precisar para despesas domésticas.
Nos últimos oito meses, eu tinha aumentado aquele valor duas vezes.
Respirei fundo e cancelei os pagamentos futuros.
Não toquei na conta médica de emergência que mantinha com eles.
Se houvesse uma urgência real, eu ajudaria.
Mas o dinheiro mensal, sem prestação de contas, acabou ali.
No sábado de manhã, acordei antes das crianças e encontrei doze chamadas perdidas.
Não respondi.
Levei Helena e Caio para tomar chocolate quente numa cafeteria pequena.
Depois caminhamos pela cidade, visitamos uma feira de artesanato e compramos um presente para meu pai.
Eu deixei o pacote na recepção da pousada e pedi que entregassem na casa dele.
À tarde, minha mãe ligou mais quinze vezes.
Patrícia mandou uma mensagem dizendo que eu estava acabando com o aniversário.
Bloqueei as notificações.
Naquela noite, comemos pizza no quarto e assistimos a um filme ruim que fez Caio rir até quase engasgar.
Foi quando percebi algo desconfortável.
Eu estava mais tranquila longe da minha família do que tinha estado quando cheguei para celebrar com eles.
No domingo pela manhã, o contador de chamadas da minha mãe havia chegado a noventa e oito.
Eu estava colocando as malas no carro quando chegou uma mensagem diferente.
“Renata, por favor.
Preciso falar com você antes que seu pai descubra tudo.”
Parei.
Antes que meu pai descobrisse