afirmação era absurda demais para ser real.
— Eu sou sua esposa.
— Legalmente, por enquanto.
Foi naquele instante que percebi que aquilo não era uma discussão improvisada.
Era um plano.
Marcelo se inclinou de repente e puxou Elisa dos meus braços.
Minha filha acordou chorando.
— Marcelo!
Tentei me levantar, mas uma dor aguda atravessou meu abdômen.
Minhas pernas falharam e caí de volta contra os travesseiros.
A enfermeira Camila Rocha, que conferia meu soro perto da porta, avançou imediatamente.
— Senhor, devolva o bebê à paciente.
Marcelo nem olhou para ela.
— Não se envolva.
— Eu já estou envolvida.
Sou a enfermeira responsável.
Bianca cruzou os braços.
— Ela não é a mãe legal.
Camila a encarou.
— Até que qualquer ordem judicial ou documentação válida seja confirmada pelo hospital, quem acabou de dar à luz é tratada como mãe do recém-nascido.
Devolva a criança.
Marcelo soltou uma risada curta.
— Você não sabe com quem está falando.
— E o senhor não parece saber onde está — respondeu Camila.
— Isso é uma maternidade, não uma sala de reunião.
A expressão dele escureceu.
Regina interveio.
— Não precisamos transformar um assunto familiar em espetáculo.
Eu estendi a mão.
— A pasta.
Marcelo olhou para mim.
— O quê?
— Se existe um contrato, me dê.
Ele hesitou apenas um segundo antes de jogá-la sobre a cama.
— Leia.
Talvez finalmente entenda sua situação.
Minhas mãos tremiam quando abri o documento.
O título falava em gestação por substituição e cessão de direitos parentais.
Meu nome completo aparecia na primeira página, junto com uma cópia de um documento antigo.
A assinatura no final parecia minha.
Boa o suficiente para enganar alguém numa análise rápida.
Mas Marcelo sempre cometia um erro quando estava confiante demais: acreditava que as pessoas ao redor dele eram menos inteligentes.
Na segunda página, encontrei o primeiro problema.
Segundo o contrato, eu teria assinado tudo pessoalmente em um cartório de Curitiba numa sexta-feira de março do ano anterior.
Eu me lembrava perfeitamente daquele dia.
Estava internada em São Paulo após um sangramento no início da gravidez.
Marcelo passara a noite ao meu lado.
Havia prontuário, exames, câmeras, registros de internação.
Continuei lendo.
O documento também declarava que eu recebera quatrocentos mil reais em pagamento pela gestação.
O valor teria sido transferido para uma conta em meu nome.
O banco era real.
A conta, não.
Pelo menos não uma que eu conhecesse.
Virei a página.
O reconhecimento de firma vinha de um tabelião que eu nunca vira.
A testemunha era um antigo funcionário da empresa de Marcelo.
Fechei a pasta.
— É falso.
Marcelo ergueu as sobrancelhas.
— Prove.
— Eu estava internada na data em que supostamente assinei isso.
Pela primeira vez, Bianca olhou para ele rapidamente.
Regina, porém, permaneceu imóvel.
Marcelo deu de ombros.
— Você assina dezenas de documentos sem ler.
— Eu nunca assinei isso.
— Vai ser a sua palavra contra a documentação.
— E contra meu prontuário hospitalar?
Ele não respondeu de imediato.
Foi pequeno, mas eu vi.
Uma fissura.
Regina percebeu também e decidiu mudar a direção da conversa.
— Helena, pense racionalmente.
Você não tem condições de criar uma criança sozinha.
— Sozinha?
— O divórcio será protocolado esta semana.
O apartamento está no nome da empresa e