lado, ouvi uma respiração pesada.
— Eu vi uma coisa na terça-feira.
Minha câmera gravou parte do que aconteceu perto do portão lateral da sua casa.
Endireitei as costas.
— A senhora tem imagens?
— Tenho duas gravações.
Uma de terça e outra de quarta.
Tentei encontrar uma forma segura de avisar você, mas não consegui falar diretamente.
Já procurei orientação do Conselho Tutelar e preservei os arquivos.
Minha mão começou a suar.
— O que aparece nos vídeos?
— Sua esposa sabia que eu estava olhando, Lucas.
Isso é o que mais me assusta.
Pedi que ela encaminhasse os arquivos sem alterar nada.
Enquanto aguardava, olhei para Nina, que estava tentando ajeitar a orelha torta de Pipoca.
Eu ainda não havia compreendido o tamanho do medo que minha filha estava carregando.
***
O primeiro vídeo chegou às 21h08.
A gravação havia sido feita na terça-feira, às 17h42, pela câmera de segurança instalada na casa de Celina.
Ela mostrava a entrada lateral da propriedade da vizinha e parte do corredor externo da nossa residência.
Vi Nina entrando no enquadramento com uma pasta escolar nos braços.
Patrícia apareceu logo atrás.
— Você nunca presta atenção em nada! — gritava.
Minha filha tentava explicar alguma coisa.
— Mamãe, o copo escorregou.
Eu ia limpar.
Patrícia segurou o braço dela e a puxou em direção ao portão metálico.
Então veio o empurrão.
Nina bateu as costas contra a estrutura.
O movimento foi rápido.
A reação da minha filha, não.
Ela se curvou, levou uma das mãos à região machucada e estendeu a outra para a mãe.
— Me ajuda.
Está doendo.
Patrícia apontou para dentro.
— Pare com o drama e entre.
O vídeo registrava também a voz de dona Celina chamando da janela.
— Patrícia, a menina se machucou! Precisa de ajuda?
Minha esposa virou o rosto.
— Ela está bem.
Foi um acidente.
— Eu vi você empurrá-la.
Patrícia ficou imóvel por um instante.
Depois pegou Nina pelo braço novamente e a levou para dentro.
Desliguei o vídeo antes de terminar.
Minha garganta estava fechada.
Eu sempre soubera que Patrícia tinha dificuldade para controlar a irritação.
Nos últimos meses, ela havia começado a reclamar que Nina era distraída, lenta e desobediente.
Mas eu aceitara explicações que pareciam razoáveis naquele momento.
Patrícia dizia estar sobrecarregada.
Eu passava muito tempo trabalhando.
Nossa filha, segundo ela, precisava aprender disciplina.
Lembrei de uma noite, três semanas antes, quando Nina pediu para eu não viajar novamente.
— Por quê, meu amor?
— Porque a mamãe fica diferente quando você não está.
Eu havia prometido ligar todos os dias.
Na época, achei que aquilo fosse suficiente.
Agora eu entendia que não era.
Abri o segundo arquivo.
A imagem mostrava a tarde de quarta-feira.
Nina estava perto do portão, segurando a mochila.
Patrícia permanecia diante dela, aparentemente sem perceber que a câmera também registrava parte da conversa.
— Se seu pai perguntar, você caiu brincando — dizia Patrícia.
Nina assentia.
— E se alguém falar que eu empurrei você, essa pessoa está mentindo.
Entendeu?
— Entendi.
— Repete.
Minha filha levantava o rosto.
— Eu caí brincando.
— Muito bem.
Então Nina fazia uma pergunta que nunca esqueci.
— Mas eu posso contar para o papai quando ele voltar?
Patrícia se aproximava.
— Se você contar, ele vai