embora.
Vai achar que você destruiu nossa família.
Quer ficar sem pai também?
Nina balançava a cabeça.
— Não, mamãe.
— Então faça o que mandei.
A gravação terminava quando Celina abria a janela e chamava Nina para perto.
Deixei o celular sobre a mesa.
Minha filha não havia apenas sofrido uma agressão.
Ela estava sendo ensinada a ter medo da verdade.
***
Enviei os arquivos para a equipe de proteção do hospital e expliquei como haviam sido obtidos.
Renata orientou que Celina mantivesse os vídeos originais, com seus dados e registros, para disponibilizá-los às autoridades pelos canais adequados.
Enquanto isso, os resultados dos exames de Nina chegaram.
Felizmente, não havia evidência de fratura.
A contusão, porém, era importante e exigia acompanhamento.
A médica prescreveu cuidados, explicou os sinais de alerta e marcou uma reavaliação.
Quando comecei a sentir algum alívio por saber que minha filha não havia sofrido uma lesão óssea grave, ouvi uma discussão na recepção.
— Meu marido está tentando tirar minha filha de mim!
Reconheci a voz imediatamente.
Patrícia havia chegado.
Ela estava acompanhada por dois policiais e falava alto o suficiente para chamar a atenção das pessoas que aguardavam atendimento.
— Ele acabou de voltar de viagem! Ficou bravo com a Nina e agora quer colocar a culpa em mim!
Renata me pediu para permanecer tranquilo enquanto esclarecia a situação com a equipe.
Pouco depois, um policial se aproximou.
— Senhor Lucas Ferraz?
Confirmei.
— Sua esposa afirma que a menina se machucou hoje, depois que o senhor chegou em casa.
Precisamos registrar e verificar as informações.
Patrícia apareceu atrás dele.
Seu rosto estava molhado de lágrimas.
— Lucas, por que você está fazendo isso? — perguntou.
— Eu sempre cuidei da nossa filha.
Pela primeira vez em anos, percebi como ela conseguia mudar de expressão quando alguém estava observando.
— Eu quero colaborar com a investigação — respondi ao policial.
— Tenho registros da minha viagem, a mensagem que Patrícia me enviou e dois vídeos feitos antes de eu voltar.
Ele pediu que explicasse a origem dos arquivos.
Contei sobre dona Celina.
Patrícia parou de chorar.
— Que vídeos? — perguntou.
Não respondi.
A equipe hospitalar mostrou as informações pertinentes às autoridades, e os policiais receberam os dados necessários para obter as gravações originais.
Quando Patrícia ouviu sua própria voz ordenando que Nina mentisse, ficou pálida.
— Isso está fora de contexto — disse.
Um dos policiais respondeu calmamente:
— A senhora poderá apresentar sua versão.
Mas precisamos verificar os fatos, inclusive a data das imagens.
— Ela caiu! — Patrícia insistiu.
— Então por que está dizendo para a menina afirmar que caiu brincando? — perguntei.
Patrícia olhou para mim com raiva.
— Você não sabe o que é ficar aqui sozinha com tudo nas costas!
A frase ficou suspensa no corredor.
Eu conhecia suas dificuldades.
Conhecia as despesas, os prazos e o cansaço de cuidar de uma casa.
Mas também conhecia a imagem da minha filha encolhida contra aquele portão.
— Estar cansada não dá a ninguém o direito de machucar uma criança — respondi.
Patrícia desviou o olhar.
Renata pediu que nossa conversa terminasse ali, longe de Nina.
A menina permaneceria protegida das discussões e não precisava ouvir os adultos disputando versões sobre o que lhe acontecera.
Naquela noite, os policiais