por causa do suco?
— Nem por causa do suco.
— Nem porque eu chorei?
— Nem porque você chorou.
Ela encostou a cabeça no meu braço.
— Então por que ela disse que era culpa minha?
Essa era uma pergunta para a qual eu não tinha uma resposta simples.
— Porque ela estava errada, filha.
E você não precisava acreditar nisso.
Nina ficou em silêncio.
Depois segurou minha mão.
***
A primeira audiência relacionada às medidas de proteção aconteceu algumas semanas depois.
Patrícia entrou acompanhada do advogado.
Usava roupas discretas e mantinha os olhos baixos.
Eu não a via pessoalmente desde a noite do hospital.
Foi estranho olhar para a mulher com quem havia dividido onze anos de vida e perceber que já não reconhecia o modo como ela lidava com nossa filha.
Durante a audiência, foram considerados os documentos médicos, as informações reunidas pelos profissionais responsáveis e as gravações preservadas por Celina.
Patrícia admitiu ter perdido a paciência, mas insistiu que não pretendia machucar Nina.
— Eu estava sobrecarregada — afirmou.
— Meu marido viaja demais, e eu precisei cuidar de tudo sozinha.
A autoridade que conduzia a audiência perguntou sobre o relato da criança e as imagens.
Patrícia respondeu que havia se arrependido imediatamente.
Mas o vídeo mostrava algo além do instante da agressão.
Mostrava também o que acontecera no dia seguinte.
A ordem para mentir.
A ameaça de que Nina perderia o pai.
A insistência em manter o silêncio.
Patrícia começou a chorar quando essa parte foi examinada.
— Eu só não queria perder minha família — disse.
Pensei em tudo que Nina havia contado.
Em cada noite em que dormira com medo.
Em cada vez que tentara perguntar se eu ainda a amaria.
Patrícia tinha medo de perder a família.
Mas Nina estava vivendo com medo dentro dela.
A decisão provisória manteve Nina residindo comigo, estabeleceu restrições protetivas e condicionou eventual convivência materna às avaliações e regras determinadas judicialmente.
A investigação sobre a agressão e as declarações contraditórias continuou em separado.
Não foi uma vitória acompanhada de aplausos.
Foi apenas o começo de um período em que minha filha poderia dormir sem precisar ensaiar explicações para suas dores.
***
Os meses seguintes não foram fáceis.
Eu pedi transferência para uma função que não exigisse viagens frequentes.
Isso significou abrir mão de parte da remuneração variável e reorganizar completamente minha rotina.
Mas passei a levar Nina à escola todas as manhãs.
Aprendi o horário das aulas de artes.
Descobri que ela odiava mamão e adorava desenhar planetas com anéis coloridos.
Comecei a participar das reuniões escolares, algo que antes quase sempre deixava para Patrícia.
Também aprendi que uma criança que viveu sob ameaças pode continuar com medo mesmo depois de sair do ambiente onde foi machucada.
Nina pedia desculpas por coisas pequenas.
Por demorar no banho.
Por deixar lápis na mesa.
Por rir alto enquanto assistia a desenhos.
Uma noite, ela deixou cair um prato de plástico no chão da cozinha.
O objeto fez um barulho seco.
Nina ficou imóvel.
Seu rosto perdeu a cor.
— Desculpa, papai.
Desculpa.
Eu não queria.
Desliguei a torneira e me abaixei para pegar o prato.
— Está tudo bem.
Ela continuou parada.
— Você não vai ficar bravo?
— Eu posso me assustar com o barulho.
Mas isso não