Minha Filha Pediu Silêncio, Mas a Vizinha Tinha Dois Vídeos

registraram os relatos e encaminharam as informações para investigação.

A equipe hospitalar realizou as notificações de proteção cabíveis.

Não houve uma solução mágica na recepção.

Houve documentos, orientações, depoimentos e uma criança que precisava ter certeza de que voltaria para um lugar seguro.

***

A madrugada seguinte foi a mais longa da minha vida.

Nina dormiu por algumas horas em observação.

Eu permaneci ao lado da cama, olhando para sua respiração tranquila e pensando nas pequenas coisas que não tinha percebido.

As ligações que ela não atendia mais.

As desculpas para não participar de chamadas de vídeo.

Os dias em que Patrícia dizia que Nina estava castigada e não poderia falar comigo.

Lembrei especialmente de uma conversa no mês anterior.

Eu estava arrumando a mala para outra viagem quando Nina apareceu no quarto.

— Papai, você gosta mais de mim ou da mamãe?

Ri, acreditando que fosse apenas uma pergunta infantil.

— Gosto das duas de maneiras diferentes, meu amor.

Ela ficou séria.

— E se uma de nós fizer alguma coisa errada?

Eu disse que continuaria amando as duas.

Hoje sei que aquela resposta, embora sincera, não respondia ao que ela realmente precisava perguntar.

Minha filha queria saber se eu a protegeria mesmo quando o perigo viesse de alguém que eu amava.

Na manhã seguinte, a equipe de proteção conversou comigo sobre os próximos passos.

O Conselho Tutelar acompanharia a situação, e seria necessário procurar orientação jurídica para definir medidas de segurança e guarda.

Telefonei para minha irmã, Mariana.

Ela era professora e morava a quinze minutos da nossa casa.

— Lucas? Aconteceu alguma coisa?

Eu havia tentado ser forte desde que encontrei Nina na lavanderia.

Mas, quando ouvi a voz de Mariana, comecei a chorar.

Contei tudo.

Minha irmã não me interrompeu.

Quando terminei, ela apenas disse:

— Você e Nina não vão passar por isso sozinhos.

Minha casa está aberta.

Aquelas palavras significaram mais do que qualquer conselho.

Com orientação da equipe de proteção, Nina recebeu alta após a avaliação médica e foi comigo para a casa de Mariana, onde permaneceríamos temporariamente.

Minha filha parecia confusa quando chegamos.

Mariana havia preparado uma cama com lençóis amarelos e colocado uma luminária pequena sobre a mesa.

Nina olhou ao redor.

— A tia não vai brigar porque eu trouxe meus brinquedos?

— Claro que não — Mariana respondeu.

— E se eu derramar alguma coisa?

Minha irmã se ajoelhou.

— A gente limpa, Nina.

Minha filha permaneceu parada por alguns segundos.

Então perguntou:

— Sem castigo?

Mariana engoliu em seco.

— Sem castigo por acidentes.

Nina abraçou Pipoca com mais força.

Foi naquele momento que percebi como o medo havia se infiltrado nas menores partes da vida dela.

***

Dois dias depois, encontrei dona Celina pessoalmente.

Ela trouxe uma cópia das gravações, os horários registrados pela câmera e as informações sobre o contato que havia feito com o serviço de proteção.

Sentamo-nos à mesa da cozinha de Mariana.

Celina parecia ter envelhecido vários anos desde a última vez que a vira.

— Eu tentei conversar com Patrícia depois do primeiro vídeo — contou.

— Ela disse que Nina era difícil e que eu não tinha direito de interferir na educação dela.

— Por que a senhora não me ligou naquela hora?

A pergunta saiu mais dura do que eu

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