carro entrou no estacionamento.
Elias espiou pela janela.
“Conhece aquele veículo?”
Era o sedã vermelho da casa.
Bruno saiu.
Elias empurrou Daniel para um depósito lateral e fechou a porta.
Pela fresta, Daniel ouviu Bruno perguntar se alguém chamado Daniel Ferraz passara pelo cemitério.
Depois ouviu o barulho de papel.
Quando Bruno saiu, Elias contou que ele carregava uma fotografia recente de Daniel.
Não de antes da prisão.
Recente.
Daniel compreendeu imediatamente.
Tinham colocado alguém na saída de Bellmont.
Estavam acompanhando seus passos.
Ele esperou quase uma hora antes de deixar o cemitério.
Só então se lembrou da velha chave de latão que mantinha presa ao chaveiro desde os vinte anos.
Augusto a entregara numa noite depois de uma discussão familiar.
“Algumas portas só precisam ser abertas quando tudo parece perdido”, o pai dissera.
Daniel sempre achara que era uma frase sentimental.
Agora não parecia mais.
O Porto Norte ficava numa região industrial degradada.
O Galpão 47 era uma estrutura baixa de tijolos, escondida entre armazéns fechados.
A chave abriu uma porta lateral.
Daniel entrou usando a lanterna do celular.
Havia uma mesa, duas cadeiras e um armário metálico.
Sobre a mesa encontrou uma fotografia do pai ao lado de Marcos Vidal, antigo contador-chefe da Ferraz Logística.
Marcos desaparecera dois dias antes de a polícia executar o mandado de busca que levou Daniel à prisão.
Na época, a promotoria afirmara que Marcos fugira por envolvimento no esquema.
Atrás da fotografia havia uma anotação:
“Marcos tentou me avisar.
Helena chegou até ele antes de mim.”
Dentro do armário, Daniel encontrou cópias de transferências, contratos e registros internos.
Em vários documentos, seu nome aparecia associado a autorizações que ele nunca vira.
Também havia um gravador digital.
Ele apertou o botão.
A voz de Augusto encheu o galpão.
“Daniel, se você encontrou isto, então Helena provavelmente já anunciou minha morte.”
Daniel levou uma mão à boca.
“Eu não morri.
Pelo menos não quando gravei esta mensagem.”
Augusto explicou que, meses depois da condenação, descobrira inconsistências nas contas que serviram de base para o processo.
Horários de acesso não combinavam com gravações internas.
Assinaturas digitais apareciam emitidas por dispositivos diferentes.
Uma empresa usada para receber dinheiro estava ligada a um ex-sócio de Helena.
Ao confrontar Bruno discretamente, Augusto percebeu que ele sabia detalhes demais.
“Bruno tinha dívidas”, dizia a gravação.
“Helena prometeu limpá-las se ele ajudasse a construir um culpado.
Você era o alvo perfeito porque já havia discutido comigo sobre a venda da empresa.”
Daniel fechou os olhos.
Aquela discussão fora apresentada no julgamento como motivo para o crime.
“Quando comecei a procurar provas, Marcos me procurou.
Ele possuía cópias dos registros verdadeiros.
Mas desapareceu antes de entregá-las.
Depois disso, tive certeza de que alguém estava monitorando até meus contatos com investigadores.”
Augusto então tomou a decisão mais extrema de sua vida.
Com ajuda de um médico aposentado que lhe devia um favor e de um advogado particular, afastou-se da cidade e permitiu que Helena acreditasse que havia fugido por medo.
Pouco depois, ela espalhara a versão de que Augusto estava doente.
Mas a gravação não esclarecia como ela conseguira criar oficialmente a história de sua morte.
“Não confie em certidões apresentadas por Helena.
Não confie em Bruno.
E não confie no delegado Renato Vilar.”
Daniel reconheceu o nome.
Vilar chefiara a investigação