árvores e muros altos.
Daniel entrou fingindo procurar um paciente.
Na recepção, ninguém reconheceu o nome Augusto Ferraz.
Então mostrou uma fotografia antiga.
Uma enfermeira mais velha mudou de expressão.
“Senhor Álvaro?”
Daniel mal conseguiu responder.
“Onde ele está?”
Ela apontou para o corredor.
Quarto 214.
Daniel abriu a porta.
Seu pai estava sentado perto da janela.
Mais magro.
Barba branca.
Ombros curvados.
Mas vivo.
Augusto virou o rosto.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então o velho tentou se levantar.
“Daniel?”
A voz falhou.
Daniel atravessou o quarto e o abraçou.
Três anos de raiva, dúvidas e noites em cela desapareceram naquele instante.
Augusto segurou o rosto do filho.
“Eu tentei tirar você de lá.”
“Por que não apareceu?”
“Porque eu não tinha provas suficientes.
Quando percebi que Renato estava envolvido, qualquer movimento meu colocava você em risco.
Depois tive um derrame leve.
Helena descobriu onde eu estava e conseguiu controlar minhas visitas.
Disse à equipe que eu tinha episódios de confusão.”
Daniel mostrou o arquivo Atlas.
“Agora temos provas.”
Augusto olhou para o pendrive.
“Então precisamos sair daqui antes que ela descubra que você chegou.”
Já era tarde.
Helena apareceu no corredor acompanhada por Bruno e Renato.
A expressão dela mudou quando viu Daniel ao lado da cama.
“Você nunca sabe quando parar”, disse.
Daniel colocou o celular no bolso com a câmera ligada.
“Você disse que ele estava morto.”
Helena entrou e fechou a porta.
“Para você, estava.”
Augusto tentou levantar.
“Acabou, Helena.”
Ela riu sem humor.
“Não.
Acaba quando eu decidir.”
Bruno permaneceu perto da porta, pálido.
Daniel voltou-se para ele.
“Ela contou que Augusto é seu pai?”
Bruno travou.
Helena lançou um olhar furioso para Daniel.
“Não faça isso.”
“Você me mandou para a prisão para tomar a empresa.
E ele ajudou porque achava que finalmente receberia o que você prometeu.”
Bruno olhou para Helena.
“Do que ele está falando?”
Daniel percebeu imediatamente.
Bruno não sabia.
Helena perdera o controle da conversa.
“Bruno”, disse Daniel, “ela disse numa gravação que Augusto é seu pai biológico.”
O silêncio dentro do quarto tornou-se sufocante.
Bruno ficou olhando para Augusto.
O velho não negou.
“Eu descobri quando você tinha dezessete anos”, disse Augusto.
“Helena me pediu para não contar.
Foi um erro.”
Bruno virou-se para a mãe.
“Você sabia todos esses anos?”
“Eu fiz o que era necessário para proteger você.”
“Você me fez ajudar a destruir meu próprio irmão.”
“Ele sempre teria tudo!”
A frase saiu mais alta do que Helena pretendia.
“Daniel tinha o nome, a confiança, o cargo.
Você teria migalhas.
Eu garanti seu futuro.”
Renato interrompeu.
“Chega.
Precisamos sair daqui.”
Foi o pior momento possível para ele falar.
Bruno olhou para o delegado.
“Você sabia também?”
Renato não respondeu.
Bruno começou a rir nervosamente.
“Então eu era o único idiota nessa história.”
Helena aproximou-se dele.
“Bruno, escute sua mãe.”
Ele recuou.
Daniel viu naquele rosto o mesmo medo do tribunal três anos antes.
Só que agora entendia.
Bruno nunca fora o arquiteto.
Era cúmplice, sim.
Mas também fora manipulado pela própria mãe.
“Eu tenho o arquivo Atlas”, disse Daniel.
“Conversas, transferências, tudo.”
Renato avançou.
“Me entregue.”
Daniel não se moveu.
“Já enviei cópias.”
Era mentira.
Mas Renato acreditou.
Nesse instante, Bruno fez a primeira escolha certa em anos.
Bloqueou a passagem do delegado.