— Por que você não pediu ajuda?
Gabriel riu amargamente.
— Porque vocês sempre acharam que eu era o filho que tinha tudo sob controle.
Clara sentiu uma pontada inesperada de tristeza.
Ali estava a motivação por trás de parte da arrogância de Gabriel: medo de fracassar, vergonha de parecer pequeno, necessidade de sustentar uma imagem.
Mas entender não significava perdoar.
— Então você mentiu para todos — disse Clara.
— Eu estava tentando salvar a empresa.
— E traiu sua esposa no processo.
Gabriel olhou para ela.
— Sim.
Dessa vez, não tentou desviar.
Clara assentiu devagar.
— Obrigada por finalmente dizer a verdade.
Ele se levantou.
— Isso significa que ainda podemos conversar?
— Significa que eu não preciso mais arrancar cada verdade de você.
Ela caminhou até a sala e começou a juntar os documentos.
Gabriel foi atrás.
— Clara, espera.
— Não.
— Eu amo você.
Ela parou.
Durante anos, aquelas três palavras haviam sido suficientes para apagar discussões.
Naquele momento, pareceram apenas atrasadas.
— Talvez você ame a versão de mim que continuava ficando — respondeu.
Gabriel ficou sem palavras.
Clara pegou sua bolsa e voltou a vestir o casaco.
Teresa aproximou-se.
— Você vai para onde?
— Para um hotel esta noite.
Amanhã fico com minha irmã até organizar minhas coisas.
— Clara…
Teresa parecia querer pedir desculpas, mas não encontrava coragem.
Clara olhou para ela.
— Quando ele gritou comigo por causa da mesa, ninguém disse nada.
A sogra baixou os olhos.
— Eu sei.
— Isso também fez parte do problema.
Teresa assentiu, lágrimas nos olhos.
Bianca aproximou-se em seguida.
— Eu vou entregar tudo o que tenho ao seu advogado.
Clara a encarou.
— Faça isso porque é certo.
Não por mim.
— Eu vou fazer.
Augusto abriu a porta da frente para Clara.
A neve continuava caindo.
Antes que ela saísse, Gabriel chamou seu nome.
— Clara.
Ela virou.
Ele estava no meio da sala, cercado pelas fotografias, pelos extratos e pelo almoço intocado.
Parecia menor do que uma hora antes.
— Eu não queria que terminasse assim.
Clara segurou a porta.
— Então deveria ter escolhido diferente antes de eu descobrir.
Ela saiu.
Os meses seguintes foram difíceis.
A empresa de Gabriel entrou em recuperação judicial.
A investigação financeira revelou movimentações imprudentes, mas o advogado de Clara conseguiu separar grande parte do patrimônio pessoal dela das dívidas comerciais que Gabriel tentara mascarar.
Bianca cooperou, fornecendo mensagens e comprovantes das transferências.
Acabou tendo de devolver parte do dinheiro recebido e fechou a empresa usada como intermediária.
Daniela desapareceu da vida de Gabriel pouco depois que os investidores começaram a cobrar garantias.
Joana descobriu que ela havia se aproximado dele inicialmente por interesses comerciais e depois transformara a relação em algo pessoal.
Quando percebeu que a empresa estava mais perto da falência do que Gabriel admitira, rompeu o contato.
Clara nunca sentiu satisfação com isso.
A derrota de Daniela não devolvia seus anos.
A queda de Gabriel não restaurava sua confiança.
O que importava era outra coisa.
Pela primeira vez em quase uma década, Clara começou a tomar decisões sem imaginar primeiro como Gabriel reagiria.
Mudou para um apartamento menor perto da clínica.
Comprou uma mesa redonda de madeira clara porque sempre quisera uma, embora Gabriel dissesse que mesas redondas desperdiçavam