Perdi Minha Filha, e Minha Sogra Tentou Roubar Meu Futuro

foram formalizados.

Não voltou a se aproximar de mim.

Eu não acompanhei cada audiência nem transformei o andamento dos processos numa ocupação diária.

Dalva me informava sobre as decisões relevantes.

Precisava aprender a proteger meu futuro sem dedicar todos os dias da minha vida às pessoas que tentaram prejudicá-lo.

Foi nessa época que voltei ao Armazém das Figueiras.

Geraldo abriu o portão numa manhã de primavera.

A luz atravessava as janelas altas e desenhava retângulos dourados no chão de cimento.

Havia cheiro de madeira antiga, tijolos úmidos e café recém-passado na pequena sala do zelador.

Caminhei devagar pelo corredor principal.

Lembrei-me de minha avó me ensinando a diferenciar as peças originais da construção das reformas feitas ao longo dos anos.

Lembrei-me de meu pai dizendo que eu não precisava vender nada apenas porque alguém oferecia muito dinheiro.

Naquela manhã, compreendi que o armazém não representava apenas uma herança financeira.

Era uma possibilidade.

Não de substituir Lia.

Nada poderia fazer isso.

Mas de construir algo que tivesse sentido para mim.

Retomei gradualmente o projeto de restauração.

Reduzi a escala inicial, procurei profissionais especializados e desenvolvi uma proposta que preservava os elementos históricos da construção.

Parte do espaço seria destinada a oficinas culturais e atividades comunitárias.

Também reservei uma pequena sala para encontros de apoio a famílias enlutadas, em parceria com profissionais e grupos que já atuavam nessa área.

Não queria transformar a história de Lia numa campanha publicitária.

Queria apenas oferecer um lugar acolhedor para pessoas que, como eu, precisavam de espaço para falar sobre filhos que viveram pouco ou que não chegaram a nascer com vida.

Meu pai me ajudou a restaurar um jardim antigo nos fundos do imóvel.

Encontramos um banco de madeira danificado, escondido sob trepadeiras.

Ele lixou a superfície, trocou duas tábuas e aplicou uma camada de proteção.

Trabalhou durante três tardes, sem reclamar do calor.

Quando terminou, chamou-me para ver.

O banco ficava debaixo de uma figueira, perto de um muro de tijolos coberto de pequenas flores brancas.

— Sua avó gostava de sentar aqui — contou ele.

— Dizia que toda casa grande precisa ter um lugar onde uma pessoa possa ficar quieta.

Sentei-me ao seu lado.

Por alguns minutos, ouvimos apenas o vento nas folhas.

— Pai, você acha que algum dia isso vai doer menos?

Ele pensou antes de responder.

— Não sei, filha.

Mas acredito que, com o tempo, a dor pode deixar espaço para outras coisas também.

Encostei a cabeça no ombro dele.

Foi a primeira resposta sobre o futuro que consegui aceitar.

Quase um ano depois da morte de Lia, realizamos uma pequena reunião naquele jardim.

Não foi uma inauguração luxuosa.

Vieram minha mãe, meu pai, Geraldo, Dalva, duas amigas e algumas pessoas que eu conhecera no grupo de apoio.

Levei a caixa de lembranças da minha filha e retirei a pequena fotografia que guardava dentro dela.

Coloquei-a por alguns minutos sobre uma mesa, ao lado de um vaso de flores amarelas.

Minha mãe se aproximou.

— Ela teria gostado daqui — disse baixinho.

Sorri com tristeza.

— Acho que sim.

Quando todos foram embora, permaneci sentada no banco que meu pai havia restaurado.

O sol estava começando a desaparecer atrás dos telhados.

Olhei para a fotografia de Lia e pensei em tudo o que tinha acontecido desde o hospital.

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