deixara.
O berço.
As cortinas amarelas.
As estrelas de madeira.
Sobre a cômoda, havia um par minúsculo de sapatinhos que eu comprara numa feira de artesanato.
Sentei-me no chão.
Chorei por muito tempo.
Depois, peguei um dos sapatinhos e o coloquei dentro da caixa de lembranças.
Não era uma despedida definitiva.
Era uma maneira de reconhecer que minha filha havia existido e continuaria fazendo parte de mim, mesmo que eu precisasse aprender a viver sem sua presença.
Comecei a frequentar um grupo de apoio para famílias que haviam vivido perdas gestacionais e neonatais.
Na primeira reunião, quase não falei.
Na segunda, consegui dizer o nome de Lia em voz alta.
Na terceira, ouvi outra mulher contar que também se sentia culpada por uma tragédia que não havia provocado.
Pela primeira vez, não tentei oferecer uma explicação.
Apenas segurei a mão dela.
Aprendi que algumas dores não precisam ser transformadas em exemplos de superação.
Precisam ser respeitadas, acompanhadas e vividas no tempo possível.
Otávio me procurou novamente quatro meses depois.
Concordei em encontrá-lo num escritório, com nossos advogados informados, para tratar dos últimos detalhes da separação.
Ele estava mais magro.
Parecia não dormir bem.
Sentou-se diante de mim e demorou a falar.
— Eu sinto falta de você.
Não respondi imediatamente.
— Sinto falta da Lia também — acrescentou.
Ouvir o nome dela na voz dele me atingiu de uma forma inesperada.
Durante semanas, eu havia me perguntado se ele também chorava quando estava sozinho.
Talvez chorasse.
Talvez não conseguisse enfrentar o que havia feito.
Talvez essas duas coisas fossem verdadeiras ao mesmo tempo.
— Você sabia o que sua mãe pretendia fazer? — perguntei.
Ele assentiu lentamente.
— Sabia sobre o empréstimo.
Achei que conseguiria convencer você depois.
A empresa estava prestes a perder muito dinheiro.
— E a assinatura?
Ele baixou a cabeça.
— Eu autorizei o escritório a preparar os documentos.
Não devia ter deixado aquilo acontecer.
— Mas deixou.
Ele respirou fundo.
— Eu estava com medo de perder a empresa do meu pai.
Observei suas mãos sobre a mesa.
Durante nosso casamento, aquelas mãos haviam segurado as minhas em aniversários, viagens e consultas médicas.
Agora, eu sabia o que elas tinham permitido.
— Você tinha medo de perder uma empresa — respondi.
— Eu perdi nossa filha.
E, enquanto tentava entender como continuar viva depois disso, você deixou sua mãe me machucar e tentou obter uma assinatura para salvar seus negócios.
Ele começou a chorar.
Não senti vontade de castigá-lo.
Também não senti vontade de consolá-lo.
— Eu queria que você tivesse sido meu companheiro quando Lia morreu — continuei.
— Não precisava resolver nada.
Não precisava ter respostas.
Só precisava estar comigo.
Otávio passou a mão pelo rosto.
— Você consegue me perdoar?
Olhei pela janela antes de responder.
— Ainda não sei.
Mas sei que não quero continuar casada com você.
A separação foi concluída algum tempo depois, respeitando o regime patrimonial que havíamos escolhido.
Não houve reconciliação.
Não houve discurso diante de uma multidão.
Houve documentos, conversas difíceis, dias de tristeza e a decisão de não retornar a uma relação na qual minha confiança havia sido destruída.
Quanto a Sílvia, tentou inicialmente apresentar a agressão como um desentendimento familiar.
Mudou a versão depois que o registro do hospital, os depoimentos e outros elementos