meu nome, antes do casamento.
A última avaliação independente indicava um valor de mercado aproximado de quatorze milhões e oitocentos mil reais.
Eu não vivia como milionária porque aquela propriedade não era dinheiro disponível numa conta corrente.
Era um patrimônio que exigia manutenção, tributos e decisões cuidadosas.
Além disso, eu pretendia restaurar parte da construção e transformá-la num centro cultural com pequenos espaços de trabalho.
Otávio sabia de tudo.
Ele me acompanhara numa visita ao armazém no começo do namoro.
Chegara a dizer que admirava minha determinação em preservar o que minha avó havia construído.
Meses depois, eu descobriria que Sílvia tinha outro projeto para a região.
A Lacerda Urbanismo adquirira terrenos vizinhos para construir um grande condomínio residencial.
O armazém oferecia a melhor possibilidade de acesso de veículos ao futuro empreendimento.
Sem ele, a empresa precisaria redesenhar o projeto, renegociar licenças e enfrentar custos adicionais.
Eu jamais soubera que o empreendimento dependia tanto da minha propriedade.
Dalva continuou lendo.
— O documento apresentado ao banco diz que você concordou em oferecer o imóvel como garantia enquanto se preparava para o nascimento da sua filha.
— Mas eu não concordei.
— Eu sei.
Otávio finalmente falou.
— Elisa, a empresa precisava de uma solução urgente.
Eu pretendia conversar com você depois do parto.
— Depois de conseguir o empréstimo?
Ele desviou os olhos.
— Não é tão simples.
— Então explique de uma maneira simples.
Sílvia interrompeu:
— Você não entende de grandes negócios.
Seu marido estava tentando proteger o futuro de vocês.
Meu pai colocou a mão sobre a pasta.
— Sílvia, não use o casamento para justificar uma operação que minha filha desconhece.
Ela olhou para ele com desprezo.
— E o senhor entende alguma coisa sobre financiamento empresarial?
— Entendo a diferença entre autorização e falsificação.
O silêncio seguinte foi mais revelador do que qualquer grito.
Dalva pediu que eu me lembrasse de qualquer contato recente do banco.
Foi então que me recordei de um e-mail recebido dezoito dias antes.
A mensagem solicitava confirmação de uma autorização de garantia imobiliária.
Eu havia encaminhado uma cópia para Dalva e perguntado a Otávio se sabia do assunto.
Ele me dissera que provavelmente era uma tentativa de fraude eletrônica.
Recomendara que eu ignorasse.
Agora, ele não conseguia sustentar meu olhar.
— Você sabia daquele e-mail — afirmei.
— Eu estava tentando resolver a situação.
— Mentindo para mim.
Ele ficou calado.
Pedi que Dalva apresentasse uma contestação formal ao banco e solicitasse todos os documentos vinculados ao meu nome.
A advogada explicou que a assinatura preliminar, isoladamente, não transferia o imóvel nem constituía uma garantia definitiva.
A procuração que Sílvia tentara obter serviria para avançar com a operação.
Essa informação me trouxe algum alívio.
Mas também revelou a intenção.
Eles precisavam da minha assinatura verdadeira.
E tinham escolhido o momento em que eu estava fisicamente fraca e emocionalmente destruída para consegui-la.
Meu pai perguntou a Otávio se ele tinha alguma explicação para o registro das 16h24.
— Foi um erro do escritório — respondeu.
Dalva apontou para outra linha.
— Então por que seu nome aparece como testemunha da anuência?
Meu marido permaneceu em silêncio.
A enfermeira pediu que encerrássemos a conversa, porque minha pressão estava subindo.
Eu concordei.
Havia perdido minha filha havia poucas horas.
Não suportava continuar ouvindo