meu marido não queria fornecer.
Quando Dalva me contou, eu não senti satisfação.
Senti cansaço.
A morte de Lia deveria ter sido o único assunto daquele período da minha vida.
Em vez disso, eu precisava acompanhar documentos, evitar operações bancárias, registrar uma agressão e descobrir até onde meu marido havia levado uma mentira.
Recebi alta no quarto dia.
Meu pai me levou para a casa dele e da minha mãe, onde eu permaneceria durante a recuperação.
Antes de sair do hospital, uma enfermeira me entregou uma caixa pequena com lembranças de Lia: a pulseira de identificação, uma impressão de seus pezinhos e uma fotografia que eu havia autorizado.
Segurei a caixa contra o peito durante todo o caminho.
Quando chegamos, meu pai perguntou se eu queria que ele guardasse aquelas lembranças por algum tempo.
— Não, pai.
Quero que fiquem comigo.
Ele assentiu.
Naquela noite, dormi com a caixa sobre a mesa de cabeceira.
Na semana seguinte, meu advogado de família entrou em contato com Otávio sobre a separação.
Ele respondeu pedindo uma conversa pessoal.
Eu recusei naquele momento.
Ainda precisava me recuperar fisicamente, e qualquer encontro deveria acontecer apenas quando eu estivesse preparada.
Enquanto isso, a investigação documental avançava.
Um exame técnico preliminar, solicitado pela defesa dos meus interesses, encontrou diferenças relevantes entre a assinatura apresentada ao banco e os padrões de assinatura que eu fornecera.
Mais tarde, os registros de comunicação entregues à investigação indicaram que o escritório de Otávio havia coordenado a preparação dos documentos usados na solicitação.
A empresa também iniciou uma auditoria interna.
A situação financeira da Lacerda Urbanismo era mais grave do que eu imaginava.
O empreendimento próximo ao meu armazém estava atrasado.
Contratos de financiamento precisavam ser renegociados.
Alguns investidores haviam condicionado novos aportes à regularização dos acessos previstos no projeto.
Otávio e Sílvia acreditavam que poderiam apresentar meu imóvel como garantia para obter crédito adicional e manter o empreendimento em funcionamento.
Não tinham conseguido comprar o armazém porque eu sempre recusara vender.
Então tentaram encontrar outra maneira de colocá-lo à disposição da empresa.
A descoberta mais dolorosa surgiu numa mensagem recuperada durante a apuração interna.
Otávio escrevera a um gerente do projeto, semanas antes do parto, que precisavam acelerar a documentação porque Elisa ficaria ocupada com o bebê e depois seria difícil discutir patrimônio.
Eu li aquela frase três vezes.
Não havia nela uma única referência à minha vontade.
Nem à minha confiança.
Minha maternidade era tratada como uma dificuldade operacional.
Dois meses depois, suficientemente recuperada para participar de uma reunião formal, fui com Dalva à sede da Lacerda Urbanismo.
Não fui para humilhar ninguém.
Fui porque a empresa precisava entender que eu não havia autorizado a operação e que não aceitaria novas tentativas de usar meu nome.
O encontro ocorreu numa sala de reuniões no décimo segundo andar.
Havia cinco conselheiros, representantes jurídicos e o responsável pela auditoria.
Sílvia estava sentada na cabeceira.
Otávio ocupava uma cadeira à sua direita.
Quando entrei, minha sogra lançou um olhar para minha roupa preta e simples.
— Veio fazer um escândalo?
Dalva respondeu antes de mim.
— Viemos apresentar documentos e esclarecer a posição da proprietária.
Um dos conselheiros pediu que começássemos.
Dalva expôs a sequência de acontecimentos: a solicitação de crédito, a assinatura contestada, a tentativa de obter uma procuração no hospital, a