não pode falar?
— Porque você vai interpretar tudo errado.
Entrei no carro.
— Boa noite, Rafael.
Dirigi para casa sozinha, ouvindo apenas o ruído do motor e o som da chuva fina que começava a atingir o para-brisa.
Às 23h18, enviei uma mensagem para Paula solicitando todos os anexos de execução, aditivos contratuais e comprovantes de serviços da Vértice referentes aos dezoito meses anteriores.
Ela respondeu antes das oito da manhã seguinte.
Precisava conversar comigo pessoalmente.
Quando cheguei, encontrei uma pasta azul sobre a mesa de reuniões.
Paula estava ao lado do computador.
— Marina, o contrato principal não tem nada muito diferente do que já conhecemos.
Mas os relatórios detalhados mostram uma contratação recorrente que nunca apareceu nas nossas apresentações resumidas.
Ela abriu uma planilha.
Entre despesas de produção audiovisual, planejamento e campanhas, havia uma linha de R$ 18 mil mensais destinada a uma consultoria estratégica terceirizada.
— Isso está dentro do valor que pagamos? — perguntei.
— Sim.
Não é uma cobrança adicional.
A agência informa que contrata uma empresa para fazer a ponte entre a Vértice e nossa diretoria de expansão.
— Quem é a empresa?
Paula apontou para o nome.
Maré Estratégia e Gestão Ltda.
Nunca tinha ouvido falar dela.
— Consultamos o registro público — Paula explicou.
— Foi aberta há treze meses.
Ela mostrou o cadastro societário.
Li o nome do proprietário.
Rafael Costa.
Meu marido.
Senti um frio estranho percorrer meus braços.
— Tem certeza?
Paula não respondeu imediatamente.
Apenas me mostrou o CNPJ, a data de abertura e o nome completo de Rafael, sem qualquer dúvida de identificação.
— São treze notas fiscais de R$ 18 mil — disse.
— A agência declarou R$ 234 mil em despesas com essa empresa.
Ainda precisamos confirmar quanto foi efetivamente pago e se os serviços foram realizados.
Peguei uma das notas.
A descrição dizia: articulação estratégica e relacionamento com direção executiva.
Rafael já trabalhava na Riacho & Grão como diretor de expansão.
Recebia um salário precisamente para manter relacionamentos operacionais e acompanhar projetos de crescimento.
Agora, uma empresa dele aparecia recebendo valores da agência que ele próprio recomendara.
— Ele declarou esse vínculo em algum lugar? — perguntei.
Paula balançou a cabeça.
— Não encontrei qualquer declaração de conflito de interesses nos registros internos.
Sentei devagar.
Havia passado anos ouvindo que Vinícius era como um irmão para meu marido.
Agora eu precisava considerar a possibilidade de que aquela amizade também tivesse se tornado uma fonte oculta de dinheiro.
Paula abriu outro arquivo.
— Ainda tem isto.
Era uma proposta de renovação antecipada do contrato da Vértice por mais três anos, com reajuste anual.
O documento não tinha minha assinatura.
Entretanto, Rafael havia enviado um e-mail ao atendimento comercial da agência assegurando que minha aprovação era uma formalidade e que o negócio poderia ser considerado garantido.
A data da mensagem era o domingo do almoço na casa da minha sogra.
Enquanto Vinícius fazia piadas sobre meu corpo, meu marido estava prometendo a ele mais três anos de faturamento com minha empresa.
Pedi uma cópia de tudo.
— Paula, ninguém será acusado de nada antes de verificarmos os fatos.
Quero um levantamento independente.
E ninguém deve alterar documentos ou apagar mensagens.
Ela concordou.
Naquela manhã, liguei para a advogada empresarial que acompanhava nossa rede desde a