Meu Marido Protegeu o Amigo Que Minha Empresa Sustentava

abertura da terceira unidade.

Camila chegou depois do almoço, acompanhada de um contador externo especializado em auditorias de fornecedores.

Expliquei a situação sem omitir o conflito familiar.

Camila ouviu atentamente.

— Temos duas questões diferentes — disse.

— Uma é a relação pessoal de vocês.

A outra é o contrato da empresa.

Precisamos separar as duas, preservar os documentos e cumprir os procedimentos previstos.

Ela analisou o contrato.

O aviso prévio de quarenta e cinco dias estava expresso.

Também havia cláusulas exigindo prestação de contas sobre serviços terceirizados e proteção dos materiais e acessos pertencentes à Riacho & Grão.

— Podemos comunicar que não haverá renovação e encerrar o vínculo no prazo previsto — explicou.

— Quanto às despesas suspeitas, primeiro precisamos investigar.

Um vínculo societário oculto é sério, mas não prova sozinho que cada serviço foi fraudulento.

Era exatamente a postura que eu queria.

Não precisava inventar culpados.

Precisava conhecer a verdade.

Durante a tarde, revisamos campanhas realizadas no último ano.

Algumas tinham sido boas.

Outras custaram caro e apresentaram resultados modestos.

Havia relatórios com atividades descritas de maneira tão vaga que não permitiam identificar quem efetivamente executara o trabalho.

O contador pediu documentos adicionais e iniciou a comparação entre entregas, notas fiscais e registros de aprovação.

Uma coincidência chamou minha atenção.

Em três meses diferentes, a agência havia informado que a consultoria Maré participara de reuniões estratégicas comigo.

Eu não conhecia aquela empresa e não me lembrava de nenhuma reunião com seus representantes.

Reconheci, porém, as datas.

Eram dias de reuniões internas que eu havia realizado com Rafael, Paula e os gerentes das cafeterias.

Se a Maré estivesse faturando pela participação de Rafael em suas próprias obrigações como empregado, o conflito seria ainda mais grave.

Voltei para casa às sete e meia da noite.

Rafael estava na sala, assistindo a um jogo de futebol.

Quando me viu com a pasta azul, desligou a televisão.

— Você foi falar com a Paula — disse.

Não era uma pergunta.

Coloquei a pasta sobre a mesa.

— Quem é o proprietário da Maré Estratégia e Gestão?

Ele não respondeu.

— Rafael, preciso ouvir de você.

— A empresa é minha.

Eu já sabia, mas escutar a confirmação trouxe um tipo diferente de dor.

— Há quanto tempo?

— Mais ou menos um ano.

— Treze meses — corrigi.

— E por que ela aparece como prestadora de serviços para a Vértice?

Ele se levantou.

— Porque eu ajudo o Vinícius a organizar a operação.

Faço consultoria para ele fora do horário da empresa.

— Consultoria sobre as campanhas da empresa onde você trabalha como diretor de expansão?

— Não é tão simples.

— Então explica.

Rafael começou a andar pela sala.

Disse que Vinícius precisava de orientação para lidar com grandes clientes, que a agência havia crescido rapidamente e que seu conhecimento era valioso.

— Eu tenho direito de usar minha experiência para ganhar dinheiro — afirmou.

— Claro que tem.

Mas existe uma diferença entre usar sua experiência e receber de um fornecedor cujo contrato você supervisiona sem declarar o interesse financeiro.

Ele ficou irritado.

— Você está me tratando como criminoso.

— Estou te perguntando por que escondeu isso de mim e da empresa.

O silêncio durou tanto que escutei a máquina de lavar terminar seu ciclo na área

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