O contador havia comparado as notas fiscais com os relatórios de atividades.
Em várias datas, a Maré alegava ter executado trabalhos de articulação interna que coincidiam integralmente com responsabilidades de Rafael na Riacho & Grão.
Também havia atividades duplicadas em dois relatórios de campanha, apresentadas como se fossem serviços diferentes.
Aquilo não permitia concluir, sem mais provas, que todo o dinheiro tinha sido recebido indevidamente.
Mas justificava exigir esclarecimentos específicos.
Camila preparou uma notificação pedindo documentação de suporte, comprovantes de pagamentos e esclarecimentos sobre a relação entre as empresas.
Na terça-feira, Vinícius finalmente me ligou.
Atendi em viva-voz, com Camila presente.
— Marina, acho que precisamos conversar como adultos — começou.
— Estou ouvindo.
— Você está levando uma situação pessoal para os negócios.
Minha agência tem funcionários, famílias, compromissos.
— Eu sei.
Por isso estamos cumprindo os prazos contratuais.
— Está mesmo disposta a colocar tudo em risco por uma piada infeliz?
— Não.
Estou encerrando um contrato após uma revisão comercial e exigindo esclarecimentos sobre despesas que não foram apresentadas de forma transparente.
Vinícius soltou uma risada curta.
— Você não entende como publicidade funciona.
— Talvez.
Mas entendo como orçamento funciona.
E entendo a diferença entre uma despesa comprovada e uma despesa que ninguém consegue explicar.
A voz dele mudou.
— O Rafael é meu sócio nisso tudo.
Olhei para Camila.
— Em quê, exatamente?
Houve silêncio do outro lado.
— É uma maneira de falar — Vinícius respondeu depressa.
— Então envie os documentos solicitados à advogada.
A ligação terminou sem despedida.
Três dias depois, recebemos parte dos comprovantes.
Os registros mostravam transferências da Vértice para a Maré, embora alguns serviços continuassem sem documentação suficiente.
A auditoria identificou pelo menos seis notas cujas atividades descritas não estavam demonstradas nos materiais entregues.
Ao mesmo tempo, surgiu uma troca de mensagens profissionais na qual Rafael orientava Vinícius sobre como apresentar a contratação da Maré nos relatórios.
Uma das frases me deixou imóvel.
O melhor é manter a consultoria dentro dos custos consolidados para não gerar perguntas desnecessárias.
Não era uma prova isolada de fraude.
Mas demonstrava que Rafael tinha consciência de que aquela contratação poderia provocar questionamentos e preferia mantê-la pouco visível.
Quando Camila me perguntou se eu queria conversar novamente com meu marido, respondi que sim.
Não porque esperasse uma explicação capaz de apagar tudo.
Mas porque precisava dar a ele a oportunidade de assumir a própria responsabilidade.
Encontramo-nos numa sala de reuniões da empresa, com os documentos separados sobre a mesa.
Rafael chegou de camisa branca e expressão cansada.
A primeira coisa que perguntou foi se eu pretendia demiti-lo.
— Ainda estamos avaliando as questões profissionais — respondi.
— Hoje quero que você explique a contratação da Maré.
Ele admitiu que havia recebido valores através da consultoria.
Disse que fez reuniões, revisou apresentações e ajudou o amigo a organizar projetos.
Quando Camila perguntou por que não declarara o vínculo, Rafael respondeu:
— Porque sabia que Marina ia criar um problema.
Eu o encarei.
— Você não escondeu para me proteger.
Escondeu porque sabia que eu poderia discordar.
Ele esfregou o rosto.
— Você sempre quer controlar tudo.
— Rafael, eu assumo a responsabilidade pelas decisões financeiras da empresa.
Isso não é controlar sua vida.
É cumprir meu dever.
Pela primeira vez, ele pareceu realmente sem resposta.